Primeiro foi El Salvador. Depois a Argentina. Em seguida o Equador, a Bolívia, o Chile. Agora a Colômbia.
Um a um, os países do hemisfério ocidental estão entrando na guerra real contra os cartéis. Uma guerra que muitos ainda insistem em tratar apenas como questão de segurança pública, quando na verdade também é uma disputa ideológica. Durante décadas, setores da esquerda latino-americana relativizaram, romantizaram ou simplesmente conviveram com o crime organizado, tratando-o como sintoma social em vez de estrutura de poder. O resultado dessa cegueira deliberada está à vista de todos.
Há eleições que não mudam apenas governos. Alteram o eixo moral de toda uma região.
Em 7 de agosto de 2026, Abelardo de la Espriella assumiu a presidência da Colômbia. Não como mais um político. Como alguém que compreendeu algo elementar e esquecido: a ordem não é um privilégio. É a condição mínima para que a civilização exista. Em poucos dias, Bogotá pediu operações militares conjuntas com os Estados Unidos e integrou-se ao Shield of the Americas. O maior produtor de cocaína da América do Sul deixou de negociar com a sombra e escolheu enfrentá-la.
Isso não é apenas política. É metafísica aplicada.
E enquanto a Colômbia começa a caçar, o Brasil continua fingindo que a floresta ao seu redor não está em chamas.
Abelardo de la Espriella: a vitória que interrompeu a acomodação
Abelardo Gabriel de la Espriella Otero não chegou ao poder pela via tradicional da política colombiana. Advogado criminalista, empresário e outsider, ele construiu sua campanha sobre uma ideia simples e quase esquecida: a ordem não se negocia com quem lucra com a desordem.
Em junho de 2026, em uma das eleições mais apertadas da história recente do país, De la Espriella derrotou Iván Cepeda, o candidato apoiado pelo projeto de Gustavo Petro. A margem foi estreita — 49,66% contra 48,70% —, mas o significado não foi. Pela primeira vez em quatro anos, a Colômbia escolheu interromper a lógica da acomodação.
Durante o governo Petro, a política de “Paz Total” privilegiou o diálogo com grupos armados e reduziu a pressão militar sobre estruturas que, na prática, combinavam ideologia de esquerda com economia do narcotráfico. O resultado foi o crescimento da área de cultivo de coca, a expansão territorial de organizações como o ELN e as dissidências das FARC, e a sensação generalizada de que o Estado havia aberto mão de sua autoridade em nome de uma paz que nunca chegou.
De la Espriella representou a recusa dessa aposta. Sua campanha não prometeu compreensões sociológicas do crime. Prometeu enfrentá-lo. O apelido “El Tigre”, que seus adversários tentaram ridicularizar, tornou-se o símbolo de uma disposição rara na política latino-americana contemporânea: a de tratar o crime organizado como inimigo, e não como interlocutor.
A vitória, embora apertada, teve consequências imediatas. Em poucos dias após a posse, o novo governo solicitou colaboração militar americana e formalizou a entrada da Colômbia no Shield of the Americas. O maior produtor de cocaína da América do Sul deixou de ocupar a posição de hesitação e passou a integrar a coalizão de países dispostos a pressionar as estruturas criminosas de forma coordenada.
Reagan proclamou a guerra. Trump organiza a coalizão
Nos anos 1980, Ronald Reagan declarou a Guerra às Drogas com a força de um moralista. Havia clareza sobre o mal, mas a estratégia ainda era incompleta. A produção se deslocou. A violência se adaptou. O mal, como sempre, encontrou novas formas de se organizar.
Donald Trump, em sua segunda gestão, não repete o mesmo erro. Ele trata os cartéis como estruturas narcoterroristas — organizações que corroem o Estado, compram instituições e transformam a ausência de autoridade em lucro. O Shield of the Americas é uma arquitetura: inteligência compartilhada, pressão financeira, operações coordenadas e a recusa explícita de relativizar o que é, em essência, uma forma organizada de barbárie.
A Colômbia de Petro tentou acomodar a sombra. A Colômbia de De la Espriella decidiu caçá-la.
Ao fazer isso, deslocou o centro de gravidade da América do Sul.
A correção necessária: Trump, El Salvador e a liderança da ordem
Durante anos, a América Latina foi educada a desconfiar da força. A narrativa dominante transformou a firmeza em autoritarismo e a tolerância com o crime em virtude democrática. O resultado dessa pedagogia foi previsível: Estados enfraquecidos, territórios entregues a organizações criminosas e uma população cada vez mais refém da violência.
Donald Trump, em sua segunda gestão, rompeu com essa lógica. Ao tratar os cartéis não como meros delinquentes, mas como estruturas narcoterroristas, ele restabeleceu uma distinção moral essencial: há diferença entre quem produz ordem e quem lucra com o caos. O Shield of the Americas não é uma aventura imperial. É a resposta de um país que compreendeu que a segurança do hemisfério não pode ser deixada à mercê de governos que relativizam o crime ou negociam com ele.
El Salvador, sob Nayib Bukele, ofereceu a prova prática mais contundente dos últimos anos. Enquanto intelectuais e organismos internacionais condenavam a “mão dura”, o país reduziu de forma dramática os homicídios, recuperou territórios controlados por maras e devolveu ao cidadão comum o direito elementar de caminhar sem medo. Não foi magia. Foi a reafirmação do monopólio legítimo da força pelo Estado — algo que qualquer civilização séria sempre soube ser indispensável.
O mesmo espírito começa a se espalhar. A Argentina de Javier Milei, o Equador de Daniel Noboa, o Chile que se desloca para a direita, a Bolívia que inicia uma correção de rota e, agora, a Colômbia de Abelardo de la Espriella. O que une esses governos não é uma ideologia única, mas a recusa de continuar tratando o crime organizado como um fenômeno social a ser compreendido, em vez de uma estrutura de poder a ser desmantelada.
Essa liderança americana e salvadorenha não é perfeita. Nenhum exercício de autoridade o é. Mas é infinitamente preferível à alternativa que dominou a região por tempo demais: a conivência disfarçada de sensibilidade, a omissão disfarçada de pragmatismo e a relativização moral disfarçada de complexidade.
A ordem não é o contrário da liberdade. É a sua condição prévia.
Quando o Estado abdica de sua função mais básica — proteger a vida e a propriedade dos cidadãos —, a liberdade se transforma em privilégio de quem carrega arma e impõe medo. Os governos conservadores que hoje se alinham a Washington e seguem o exemplo de El Salvador estão, na verdade, tentando restaurar essa verdade elementar.
O crime organizado não tem ideologia. Tem inteligência predatória — e proteção política
Aqui reside o ponto que grande parte da elite brasileira se recusa a pronunciar em voz alta.
O cartel moderno não é um grupo de bandidos improvisados. É uma empresa. Possui logística, contabilidade, lavagem de capital e redes internacionais. Mas possui, sobretudo, algo mais valioso: a conivência.
Não se trata apenas de corrupção pontual. Trata-se de uma relação estrutural, longa e bem azeitada, entre setores da política, do sistema de justiça, de parcelas das polícias e do crime organizado. Uma relação que se disfarça de pragmatismo, de “não há outra forma”, de “é assim que as coisas funcionam”. Uma relação que amplos setores do povo brasileiro preferem não enxergar com clareza — porque enxergar exigiria admitir que o problema não está apenas nas favelas ou nas fronteiras, mas também nos gabinetes, nas assembleias e nas redes de influência que se alimentam da desordem.
Quando a Colômbia, o Equador e outros países começam a fechar as portas, o capital criminoso faz a pergunta que todo predador faz:
Onde ainda existe espaço?
Onde a autoridade do Estado é mais porosa?
Onde a conivência ainda é tolerada?
O Brasil responde a essas perguntas com um silêncio constrangedor.
A cegueira coletiva como forma de conforto
Há uma dimensão ainda mais inquietante.
Não é apenas a conivência de políticos. É a disposição de amplos setores da sociedade em fingir que não veem. Em tratar o crime organizado como um fenômeno quase natural, como se fosse uma fatalidade geográfica ou social, e não o resultado de décadas de omissão, de barganhas e de relativização moral.
Chama-se a isso, em alguns círculos, de “complexidade”. Em linguagem mais honesta, chama-se covardia intelectual.
Porque admitir a conivência obriga a admitir responsabilidade. E responsabilidade exige escolha. Exige lado. Exige a coragem de dizer que certas alianças, certas proteções e certas omissões não são inevitáveis — são decisões.
Enquanto a Colômbia começa a romper com essa lógica, o Brasil ainda debate se deve ou não endurecer o discurso. Como se o problema fosse de retórica e não de vontade política real.
Soberania não é isolamento. É capacidade de decidir — e de romper com a conivência
Há quem diga que o Brasil deve permanecer fora de qualquer alinhamento com Washington por razões de soberania. O argumento é respeitável e incompleto.
Soberania não consiste em recusar cooperação. Consiste em ter a força para escolher os termos dela — e, sobretudo, em ter a força para romper com aqueles que, dentro do próprio território, transformaram a desordem em negócio.
Um país pode rejeitar a presença de tropas estrangeiras e, ao mesmo tempo, construir a mais sofisticada rede de inteligência financeira, controle de fronteiras e combate à lavagem de dinheiro. Pode fazê-lo sozinho ou em coordenação. O que não pode é fingir que a omissão é neutralidade, nem que a conivência é pragmatismo.
A neutralidade, diante de um inimigo que se adapta e que compra proteção, é apenas uma forma elegante de derrota.
A floresta e o Tigre
De la Espriella se apresenta como o Tigre. O apelido é teatral, mas a metáfora é útil. Um tigre pode caçar. Pode aterrorizar. Pode, por um tempo, impor ordem pela força. Mas nenhum país pode depender eternamente de um homem.
O que a Colômbia precisa — e o que o Brasil precisará ainda mais — não é apenas um predador capaz de caçar criminosos. É uma floresta inteira onde o crime não encontre alimento: instituições sólidas, fronteiras controladas, sistema financeiro vigilante, justiça que funcione e uma cultura política que deixe de romantizar a desordem e de tolerar a conivência.
A mão dura sem Estado forte se transforma em personalismo.
O Estado forte sem clareza moral se transforma em burocracia inútil.
E a conivência, disfarçada de realismo, se transforma em veneno lento.
A pergunta que já não pode ser adiada
A Colômbia escolheu. Washington reforçou a escolha.
Agora a pergunta paira sobre Brasília com a frieza de um fato:
Quando os países ao redor começarem a fechar as portas para o capital criminoso, o Brasil será a última fronteira de resistência…
…ou a última grande oportunidade para aqueles que transformaram a ausência do Estado — e a conivência de parte da política — em um negócio extraordinariamente lucrativo?
Essa resposta não será escrita apenas por um governo. Será escrita pela capacidade — ou pela incapacidade — de uma nação de olhar para si mesma sem o conforto da negação.
O crime organizado deixou de ser um problema policial.
Tornou-se uma questão de soberania.
De ordem.
De civilização.
E a história não parece disposta a esperar o Brasil decidir se ainda prefere fingir que não vê.
