By Jessica Segatto
O mundo da moda silenciou-se, de forma quase reverente, esta semana, com a notícia do falecimento de Valentino Clemente Ludovico Garavani, que nos deixou em sua residência em Roma, aos 93 anos. Sua partida, em 19 de janeiro de 2026, não marca apenas o fim de uma vida extraordinária, mas o encerramento de um capítulo dourado na história do haute couture e da alta costura italiana. Se a elegância fosse uma religião, Valentino teria sido seu profeta mais fervoroso, disciplinado e, acima de tudo, seu mais dedicado sacerdote. Ele não apenas desenhou vestidos; ele esculpiu uma filosofia de vida onde a beleza não era percebida como um luxo supérfluo, mas como um dever ético, uma forma de respeito ao mundo e uma manifestação da mais pura arte.

Valentino acreditava, com uma convicção quase intransigente, que o papel primordial do criador era elevar a existência humana através do rigor estético e do esplendor visual. Sua trajetória, desde os primeiros passos como aprendiz em Paris nos anos 50 até a fundação de sua própria Maison em 1960, ao lado de seu parceiro de vida e negócios, Giancarlo Giammetti, foi intrinsecamente guiada por uma busca incessante pela perfeição. Enquanto o mundo ao seu redor abraçava as tendências efêmeras, o experimentalismo e o caos da contracultura, Valentino permanecia ancorado firmemente no clássico, no atemporal. Para ele, a moda não deveria ser um grito desesperado por atenção ou uma declaração passageira; deveria ser, em vez disso, um sussurro persistente de permanência, um eco da beleza que transcende o tempo.


Desde cedo, em Voghera, uma pequena cidade no norte da Itália, o jovem Valentino demonstrava uma fascinação precoce pelo glamour e pela teatralidade da moda. Sua tia era dona de uma loja de roupas e, foi ali, entre os tecidos e os manequins, que ele teve seus primeiros vislumbres do poder transformador de um belo vestido. Aos 17 anos, com o apoio de seus pais, ele se mudou para Paris, o epicentro da moda mundial, para estudar na École des Beaux-Arts e na Chambre Syndicale de la Couture Parisienne. Lá, ele absorveu as técnicas intrincadas da alta costura, trabalhando nos ateliers de Jean Dessès e Guy Laroche. Foi nessa atmosfera de rigor e refinamento que sua visão estética começou a se consolidar: um casamento perfeito entre a opulência e a contenção, entre o drama e a delicadeza.



A Metafísica do Vermelho e a Pureza da Emoção
O legado de Valentino é, talvez, indissociável de sua cor assinatura: o Vermelho Valentino. Esta não era apenas uma cor, mas uma entidade, uma linguagem visual própria. A inspiração para esse matiz específico veio de uma epifania juvenil em uma ópera em Barcelona, onde ele foi cativado pela visão de mulheres vestidas em tons vibrantes de vermelho sangue e carmesim intenso. Ele buscou replicar essa emoção, essa força, mas com uma sofisticação inigualável. O Vermelho Valentino é um equilíbrio delicado entre a paixão ardente e a sofisticação contida, entre a ousadia e a dignidade.

A cor não era apenas um adorno; era um statement. Ele entendia, como poucos, que a cor certa poderia conferir a uma mulher não apenas um visual deslumbrante, mas uma armadura de confiança, uma aura de poder inquestionável. Das seis peças de luto impecavelmente desenhadas para Jacqueline Kennedy após a tragédia de 1963 — um testemunho de sua capacidade de infundir dignidade na dor — ao icônico vestido de noiva em renda para o casamento de Jackie com Aristóteles Onassis em 1968, o trabalho de Valentino pontuou os momentos mais íntimos e públicos da história do século XX. Seus vestidos não eram meras roupas; eram narrativas, testemunhas silenciosas de eventos que moldaram o mundo.
O Arquiteto da Beleza e o Jardim Secreto
Valentino não era apenas um estilista; era um arquiteto da beleza. Seus designs eram meticulosamente estruturados, cada dobra, cada prega, cada linha, deliberadamente colocada para realçar a forma feminina. Ele rejeitava a ideia de que a moda deveria ser ditada por caprichos passageiros. Em vez disso, ele buscava criar peças que fossem eternas, que pudessem ser usadas décadas depois e ainda evocassem a mesma admiração. Seus vestidos de baile volumosos, seus tailleurs perfeitamente ajustados, e seus vestidos fluidos de seda eram obras de arte em movimento, que adornavam mulheres como Elizabeth Taylor, Audrey Hepburn, Sophia Loren e a Princesa Margaret, tornando-as embaixadoras vivas de seu ethos.
