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Economia

UENO BANK: O COLAPSO FINANCEIRO NO PARAGUAI E O ALERTA PARA QUEM ACREDITOU ESTAR PROTEGENDO SEU PATRIMÔNIO

EditorialBy Editorialnovembro 5, 202610 Mins Read
Sede do Banco Central do Paraguai em Assunção
Banco Central do Paraguai. Foto: Felipe Méndez / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
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Especial | Economia, política, sistema financeiro e proteção patrimonial | VOZ Insight Magazine

Quando a confiança desaparece, o dinheiro deixa de ser apenas patrimônio e passa a ser uma questão de sobrevivência financeira.

Olá, leitores da VOZ!

O que aconteceu no Paraguai merece muito mais atenção do que uma simples notícia sobre a intervenção de um banco. A crise do Ueno Bank, anunciada pelo Banco Central do Paraguai em 3 de novembro de 2026, colocou milhões de clientes em uma situação de incerteza e levantou questões importantes sobre fiscalização, relações políticas, segurança financeira e confiança institucional.

O episódio também merece atenção no Brasil. Durante os últimos anos, o Paraguai passou a atrair empresários, investidores e brasileiros interessados em diversificar seus patrimônios, estabelecer negócios ou encontrar alternativas financeiras fora do sistema brasileiro.

Para muitos, transferir dinheiro para outro país representava uma maneira de proteger suas economias. Mas o que acontece quando a instituição escolhida para oferecer essa segurança entra em processo de resolução?

Essa é a pergunta que precisa ser feita.

O que aconteceu

Segundo comunicado oficial do Banco Central do Paraguai (BCP), o Diretório da instituição decidiu por unanimidade, em resolução datada de 2 de novembro de 2026, iniciar o procedimento de resolução do Ueno Bank. O motivo apontado foi uma insuficiência no índice de solvência, que caiu abaixo de 50% do mínimo exigido, como consequência de ajustes feitos nos estados financeiros do banco durante um processo de regularização que já estava em curso. A medida foi tornada pública na madrugada de 3 de novembro.

O efeito foi imediato. De acordo com a BBC News Mundo, clientes relataram que não conseguiam sacar dinheiro em caixas eletrônicos nem acessar o aplicativo. Liana Caballero, integrante do Diretório do BCP, confirmou em entrevista coletiva que nem o aplicativo, nem os cartões, nem qualquer serviço da entidade continuariam ativos a partir daquela data.

O tamanho do problema explica a comoção. Segundo números do próprio banco citados pela BBC, o Ueno tem cerca de 3 milhões de clientes, o equivalente a aproximadamente 60% da população adulta paraguaia. A mesma reportagem informa que a instituição administrava mais de 800 milhões de dólares em recursos públicos, incluindo cerca de 380 milhões de dólares aplicados pelo Instituto de Previsión Social, o fundo estatal de aposentadorias.

O que a garantia de depósitos cobre

O procedimento segue a Lei 2.334/03, que trata da garantia de depósitos e da resolução de entidades financeiras. Segundo o BCP, os depósitos contam com uma garantia de até 75 salários mínimos mensais, o que equivale hoje a 228.300.000 guaraníes, algo em torno de 38 mil dólares segundo a BBC. A cobertura vale por depositante e por instituição, e não por conta. Quem tinha três contas no mesmo banco não tem três garantias.

O que excede esse limite depende do balanço de exclusão que a Superintendência de Bancos está elaborando. Segundo o ABC Color, o BCP tem prazo máximo de 15 dias para concluir esse balanço e afirma trabalhar para encurtá-lo. Os interventores designados terão como prioridade preservar os ativos do banco. Para o cliente comum, a orientação é acompanhar exclusivamente os comunicados oficiais do BCP e desconfiar de intermediários que prometam acelerar o recebimento.

A pergunta política

Nenhuma crise bancária acontece no vácuo. Segundo a BBC e a Associated Press, o Ueno Bank tem vínculos estreitos com o círculo do presidente Santiago Peña. Pouco depois de assumir em 2023, Peña nomeou para a presidência do Banco Central Carlos Carvallo, que até então era executivo do próprio Ueno. Críticos apontaram na época um possível conflito de interesses. O BCP sustentou que Carvallo se afastou das decisões de supervisão sobre o banco do qual havia feito parte.

Nesta semana, segundo a BBC, Carvallo declarou que já assinou sua renúncia, mas que permanecerá no cargo até concluir o processo de resolução, porque o Banco Central “precisa de tranquilidade para fazer seu trabalho”. Ele também afirmou que o caso é “um fato pontual e isolado” e que o sistema financeiro paraguaio continua sólido.

A mesma reportagem relata que meios de comunicação paraguaios informaram a detenção de diretores do banco, entre eles seu presidente, Miguel Vázquez. Não há, até aqui, julgamento algum, e todos os envolvidos têm direito à presunção de inocência. As investigações é que dirão se houve irregularidade, e de quem. A repercussão política, porém, já é concreta: segundo a BBC, o vice-presidente Pedro Alliana anunciou que colocou “em pausa” sua pré-candidatura presidencial pelo Partido Colorado.

A questão que fica não é sobre culpados, é sobre estrutura. Quando a mesma rede de confiança atravessa o banco supervisionado e o órgão supervisor, a independência da fiscalização passa a depender da virtude das pessoas, e não da arquitetura das instituições. E instituições existem justamente para não depender da virtude de ninguém.

Por que isso importa para os brasileiros

Muitos brasileiros olharam para o Paraguai como um porto: impostos menores, câmbio favorável, menos burocracia, um sistema que parecia mais leve. Nada disso é ilegítimo. Diversificar é prudente. Mas o caso Ueno lembra que sair de um risco não significa sair do risco. Significa trocar de risco.

Quem levou suas economias para fora em busca de proteção precisa se perguntar algumas coisas com honestidade. Eu conheço a instituição onde está meu dinheiro, ou apenas confiei na sua marca, no seu aplicativo bonito e na sua popularidade? Sei qual é o limite da garantia de depósitos no país escolhido? Sei se meu patrimônio está concentrado em um único banco, um único país, uma única moeda?

O Paraguai como destino do capital brasileiro

Os números confirmam que o movimento de brasileiros rumo ao Paraguai é real, estruturado e em aceleração.

O Brasil é, de longe, o principal país de origem do investimento direto estrangeiro no Paraguai. Segundo o Banco Central paraguaio, o estoque de capital brasileiro chegou a US$ 2,191 bilhões no fim de 2025, cerca de 15% do total de US$ 14,8 bilhões. O fluxo líquido de investimento direto no país em 2025 foi recorde (US$ 1,151 bilhão). Após as eleições brasileiras, a Câmara de Comércio Paraguay-Brasil registrou um salto nas consultas de empresários, segundo o jornal 5Días. Brasileiros lideram também os pedidos de residência (cerca de 47% das solicitações de 2025, segundo dados citados pelo ABC Color) e são presença forte no mercado imobiliário e no agronegócio (especialmente no Chaco).

As razões são objetivas e comparáveis:

  • O modelo “10-10-10”: alíquotas na casa de 10% para o imposto de renda empresarial (IRE), pessoal (IRP) e IVA, contra uma carga tributária brasileira de cerca de 32% do PIB (32,4% em 2025, segundo o Tesouro Nacional) e um sistema fragmentado, mutável e de alta complexidade.
  • Tributação territorial: renda de fonte estrangeira, em regra, não é tributada para residentes. Isso atrai quem tem negócios, investimentos ou trabalho remoto fora do Paraguai.
  • Regime de Maquila: imposto único de 1% sobre o valor agregado para produção voltada à exportação, com suspensão de tributos na importação de insumos e bens de capital. Centenas de empresas brasileiras (têxtil, alimentos, plásticos, agroindústria) já operam sob esse marco.
  • Custos menores de terra, energia, mão de obra e burocracia, além de incentivos específicos para investimento produtivo e imobiliário.

Em resumo, muitos brasileiros com capital (empresários, produtores rurais, investidores imobiliários e profissionais de alta renda) enxergam no Paraguai um ambiente de regras mais simples, carga menor e maior previsibilidade relativa do que a do Brasil atual. Não se trata de “fuga romântica”, mas de aritmética e de busca por soberania sobre o próprio patrimônio.

A intervenção no Ueno Bank, porém, funciona como um lembrete frio e necessário. Segundo reportagens que citam documentos do BCP, o índice de solvência do banco caiu para 5,56%, menos da metade do mínimo legal de 12%, e as inspeções apontaram créditos de valores elevados a empresas que seriam vinculadas ao grupo controlador, fatos que agora estão sob investigação. A garantia de depósitos se aplica igualmente a estrangeiros e não residentes, e, segundo estimativas das autoridades citadas pelo La Nación argentino, cobre integralmente cerca de 97% dos depositantes. Ainda assim, fundos públicos significativos estão expostos, houve detenções de executivos, a renúncia do presidente do Banco Central e protestos de correntistas nas ruas.

Isso não anula as vantagens estruturais do Paraguai, nem indica colapso do sistema financeiro (outras instituições seguem operando). Expõe, no entanto, o ponto frágil clássico de economias emergentes que se vendem como “paraíso”: a qualidade da supervisão bancária, a permeabilidade política e o risco de que interesses privados bem conectados contaminem a confiança institucional. O capital brasileiro está seguindo para lá porque o Brasil o empurra; a crise do Ueno mostra que o destino ainda não é um porto seguro automático.

Ainda não há números oficiais sobre quantos brasileiros estão entre os cerca de 3 milhões de clientes do Ueno. Mas, diante da onda recente de brasileiros que venderam o que tinham no Brasil e recomeçaram a vida no Paraguai, é difícil imaginar que não estejam entre eles. Uma crise bancária é como um acidente aéreo: no primeiro momento, ninguém sabe ao certo quem estava a bordo. A lista só se revela quando as famílias começam a se manifestar. Nos próximos dias, é provável que surjam as histórias de brasileiros que confiaram todo o patrimônio a uma única instituição e agora esperam para saber quanto vão recuperar.

Quem migra patrimônio ou operação precisa olhar além da alíquota de 10% e avaliar a solidez do arcabouço regulatório, a independência efetiva do Banco Central e a capacidade do Estado paraguaio de honrar garantias sem turbulência política. O movimento existe e tem fundamentos sólidos. A prudência, neste momento, exige distinguir o atrativo estrutural do risco de execução.

Lições práticas para quem protege patrimônio no exterior

Primeiro, verifique a regulação. Confirme que a instituição é autorizada e supervisionada pelo banco central do país, leia seus balanços e acompanhe seus índices de solvência, que são públicos.

Segundo, conheça a garantia. Cada país tem seu fundo de proteção, com limites próprios. No Paraguai, 75 salários mínimos por pessoa e por banco. Valores acima disso ficam expostos ao processo de resolução.

Terceiro, divida. Concentrar tudo em uma instituição, por mais sólida que pareça, transforma uma crise isolada em uma tragédia pessoal. Distribuir recursos entre bancos, países e tipos de ativo é a forma mais simples de não depender de um único desfecho.

Quarto, observe a política. Proximidade entre um banco e o poder pode parecer sinal de força, mas também é um sinal de risco de fiscalização frágil. Bancos muito ligados a governos sobem com eles e, às vezes, caem com eles.

Quinto, mantenha liquidez acessível. Uma reserva em instituição diferente garante que, se um banco fechar as portas de um dia para o outro, as contas da casa continuem sendo pagas.

A confiança como patrimônio

Há uma ironia antiga no dinheiro. Ele parece a coisa mais concreta do mundo, mas é feito quase inteiramente de confiança. Um número na tela do celular só vale enquanto acreditamos que a instituição do outro lado vai honrá-lo. Na madrugada de 3 de novembro, milhões de paraguaios descobriram que essa crença pode ser suspensa por uma resolução administrativa.

Isso não é motivo para pânico, nem para desprezar o Paraguai ou qualquer outro destino. É motivo para maturidade. Proteger patrimônio não é encontrar um lugar perfeito, porque ele não existe. É construir uma estrutura que suporte a imperfeição dos lugares, das instituições e das pessoas.

O Ueno Bank deixa uma lição que vale para Assunção, para São Paulo e para qualquer outra praça: a segurança não está no endereço do dinheiro, está na forma como ele é distribuído, vigiado e compreendido por quem o possui.

A VOZ seguirá acompanhando os desdobramentos do caso.

Fontes: Banco Central del Paraguay (comunicado oficial de 3/11/2026 e relatório de Inversión Directa 2025); BBC News Mundo; Associated Press; ABC Color; La Nación (Paraguai); 5Días; Forbes Paraguay; Perfil; La Nación (Argentina); Tesouro Nacional.

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