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Trumpulência: a nova ordem nasce pela força, e o que era “teoria da conspiração” virou documento oficial

EditorialBy Editorialoutubro 31, 202615 Mins Read
Ilustração: Trump pilotando um avião em meio à turbulência sobre o globo
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Apertem os cintos

Todo passageiro conhece o aviso: "Senhoras e senhores, retornem a seus assentos e afivelem os cintos. Vamos atravessar uma área de turbulência." Em fevereiro de 2025, o economista e diplomata Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, o banco do BRICS, emprestou essa imagem para batizar a era que começava: "Trumpulência". O jogo de palavras reúne turbulência, opulência e, como o próprio Troyjo acrescentou depois, uma boa dose de incoerência.

Troyjo fez questão de lembrar que, sob a ótica da Realpolitik, a Trumpulência "não é benigna ou maligna". É uma força. E forças não pedem licença; exigem estratégia de quem precisa lidar com elas.

Um ano e nove meses depois, a pergunta que interessa não é se o piloto agrada aos comentaristas da primeira classe. É para onde o avião está indo. E a resposta, para quem olha os instrumentos e não o barulho, é cada vez mais nítida: o avião tem rota, e o piloto sabe qual é.

Há uma segunda pergunta, menos óbvia: o que acontecia na cabine que os passageiros não viam? Porque o poder opera em dois andares. No andar de cima, o visível: tarifas, guerras, barris de petróleo. No andar de baixo, o escondido: informação, inteligência, narrativas. Este texto é uma viagem pelos dois, e um exercício de separar o que está provado do que é apenas narrativa conveniente.

A causa: a doutrina vira método

Toda política externa tem uma doutrina. A novidade de Donald Trump é o método: aplicar a doutrina ao comércio e à guerra sem o verniz da diplomacia de salão. Tarifas viram instrumento de pressão política. Ameaças viram ponto de partida de negociação. A imprevisibilidade deixa de ser defeito e passa a ser ferramenta, e os adversários, acostumados a ler cada passo de Washington com meses de antecedência, perderam o conforto.

Os pilares desse método são claros: fronteira sob controle, energia abundante e barata, o "drill, baby, drill" repetido diante do Congresso em março de 2025, e a disposição de usar o poder militar de forma pontual, mas inequívoca.

A primeira lição de estratégia política está aqui. Quem domina o tempo e o imprevisível obriga os outros a reagir. E quem reage não dita a agenda.

Para quem quer ver o método em movimento, eis o recorte de um ano e nove meses de mandato, com o porquê de cada passo e o que ele representou:

  • Janeiro/2025 – Emergência nacional na fronteira sul: Trump tratou a imigração ilegal em massa como uma "invasão" contra a qual os estados precisavam de proteção, e devolveu à fronteira o status de questão de soberania, não de burocracia.
  • Janeiro/2025 – Emergência energética nacional: a ordem afirmou que produção e infraestrutura insuficientes ameaçavam a segurança e o bolso do americano; o recado foi que energia é poder, e que os EUA voltariam a usá-lo.
  • Janeiro/2025 – Ordem executiva 14176, arquivos de Kennedy: o presidente declarou ser de interesse nacional liberar sem demora documentos retidos por décadas; foi o primeiro ato concreto de abertura do "porão".
  • Abril/2025 – Tarifas recíprocas: a justificativa oficial foram déficits comerciais "grandes e persistentes" e a falta de reciprocidade; o "Dia da Libertação" transformou a tarifa em alavanca de negociação.
  • Junho/2025 – Operação Midnight Hammer: fiel à promessa de jamais permitir um Irã nuclear, os EUA atingiram Fordow, Natanz e Isfahan; a dissuasão deixou de ser retórica.
  • Junho/2025 – Cúpula da OTAN em Haia: depois de anos cobrando que os europeus pagassem pela própria defesa, Trump viu os aliados se comprometerem a investir 5% do PIB em defesa e segurança até 2035, contra a antiga meta de 2%.
  • Julho/2025 – Lei "One Big Beautiful Bill": sancionada em 4 de julho, consolidou no Congresso a agenda econômica do governo, numa data escolhida a dedo pelo simbolismo.
  • Julho/2025 – Acordos com Japão e União Europeia: o argumento da reciprocidade produziu resultado, com tarifas-base de 15% e compromissos bilionários de investimento e compras nos EUA anunciados pelas partes.
  • Julho/2025 – Plano de Ação de IA: a Casa Branca declarou "inegociável" vencer a corrida da inteligência artificial e apostou em menos regulação e licenças mais rápidas para data centers.
  • Novembro/2025 – Lei de Transparência dos Arquivos Epstein: sancionada em 19 de novembro, obrigou o Departamento de Justiça a divulgar os documentos do caso; transparência virou lei, não promessa.
  • Janeiro/2026 – Operação Absolute Resolve: sob acusações de narcoterrorismo, Nicolás Maduro foi capturado e levado a Nova York; o combate ao crime organizado transnacional saiu do discurso.

O Oriente Médio e o preço do medo

No discurso do Estado da União, em fevereiro de 2026, Trump resumiu sua posição sobre o Irã:

"Minha preferência é resolver esta questão pela diplomacia. Mas uma coisa é certa: eu nunca permitirei que o maior patrocinador do terror no mundo tenha uma arma nuclear."

Donald Trump, discurso do Estado da União, fevereiro de 2026

Ofereceu a diplomacia; diante da recusa, veio a força. Pelo Estreito de Ormuz passa, normalmente, cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo, segundo a Reuters. Ameaças e ataques iranianos a navios fizeram muitos analistas do establishment profetizarem o barril acima de US$ 200 e o colapso da economia global.

A profecia falhou. O preço subiu, mas a Agência de Informação de Energia dos EUA (EIA) projeta para 2026 uma média do Brent em torno de US$ 96, abaixo da barreira psicológica dos US$ 100. Por quê? Porque o tabuleiro já tinha sido redesenhado antes da guerra: os Estados Unidos produzem hoje um recorde de cerca de 13,9 milhões de barris por dia, segundo a EIA, contra pouco mais de 9 milhões em 2017. O "drill, baby, drill", tão ridicularizado, era seguro contra chantagem. Quem tem petróleo em casa não se ajoelha diante de quem fecha estreitos.

Em abril de 2026, outro abalo: os Emirados Árabes Unidos anunciaram a saída da OPEP e da OPEP+, após quase 60 anos de participação. Abu Dhabi diz que foi uma decisão soberana e econômica. Mas a pergunta se impõe: num Golfo em guerra, quanto pesou estar ao lado da potência que demonstrou disposição de agir?

Venezuela: quando a força substitui a retórica

Em 3 de janeiro de 2026, forças americanas capturaram Nicolás Maduro em Caracas, numa operação que o Pentágono chamou de "Absolute Resolve". Ele foi levado a Nova York para responder a acusações de narcoterrorismo e tráfico, que nega, declarando-se inocente. Caberá à Justiça julgá-lo.

O recado ao continente foi inequívoco: durante décadas, cúpulas, notas e resoluções condenaram o regime de Caracas sem mudar nada. Bastou uma decisão para que o discurso virasse fato. Quem ainda fala em "precedente perigoso" costuma esquecer o precedente que já existia: o de regimes que se perpetuavam porque sabiam que ninguém agiria.

O efeito dominó, segundo analistas, vai além de Caracas: Cuba perde o petróleo venezuelano que a sustentava, redes criminosas perdem rotas e financiamento, e o projeto político que unia governos de esquerda da região, simbolizado pelo Foro de São Paulo, parece hoje mais frágil do que em qualquer momento das últimas três décadas. Coincidência ou não, a direita venceu eleições em vários países do continente.

O Brasil e o preço da escolha

O Brasil escolheu outro caminho. A diplomacia brasileira, historicamente pragmática, passou a adotar postura mais confrontacional em relação a Washington, com críticas ao dólar no BRICS e a recusa em classificar facções como PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, como pedem setores do governo americano.

A conta chegou em forma de tarifa. Em julho de 2025, os EUA impuseram tarifas de 50% sobre parte das exportações brasileiras. Em julho de 2026, após uma investigação da Seção 301, veio nova tarifa de 25% sobre a maioria das importações do Brasil. O secretário de Estado Marco Rubio escreveu que Lula "colocou seu próprio ego acima da realização de um acordo" e que as tarifas eram "o preço a pagar por isso".

O Itamaraty chamou as declarações de "inaceitáveis e ofensivas" e afirmou que o que Rubio chama de ego é a "convicção inabalável" do presidente na defesa da soberania brasileira. O governo diz ter participado de mais de 30 reuniões de negociação.

Japão e União Europeia negociaram e fecharam acordos. O Brasil preferiu o palanque. E quem paga a tarifa não é o discurso: é o trabalhador da fábrica, o produtor e o exportador brasileiro. Com Lula reeleito em outubro, a pergunta volta à mesa: o país vai continuar brigando com a turbulência por orgulho, ou vai procurar a rota mais segura para os próprios passageiros?

O andar de baixo: quando a "teoria da conspiração" virou documento

Tarifas, mísseis e petroleiros são o poder que se vê. Mas toda grande potência também opera no andar de baixo, onde circulam segredos, relatórios e versões. E é ali que mora uma das lições mais incômodas do último meio século: coisas que eram ridicularizadas como "teoria da conspiração" acabaram confirmadas, anos depois, por documentos oficiais.

Não todas, é verdade. Mas o suficiente para que o rótulo "conspiracionista" deixe de ser argumento e passe a ser, muitas vezes, um modo elegante de encerrar a conversa antes que alguém faça a pergunta certa.

Três vozes ajudam a entender o fenômeno. A primeira veio do rádio. Milton William "Bill" Cooper, ex-integrante da inteligência naval americana, publicou em 1991 "Behold a Pale Horse" ("Eis um cavalo amarelo"), em que falava de governos secretos, vigilância em massa e manipulação da opinião pública. Muitas de suas teses mais amplas eram extravagantes e continuam sem comprovação. Ainda assim, o livro vendeu centenas de milhares de exemplares e virou leitura de culto entre quem sentia que o jogo estava armado contra si. Cooper morreu em 2001, num confronto com a polícia no Arizona.

A segunda voz não acreditou em Cooper, mas levou a sério o que ele representava. O jornalista Mark Jacobson, na biografia "Pale Horse Rider" (2018), mostrou como a desconfiança nas instituições cresceu a ponto de teorias sem prova serem tratadas como verdade revelada. Jacobson não perguntou se Cooper tinha razão; perguntou por que tanta gente precisava que ele tivesse.

A terceira voz veio da academia. O historiador Yuval Noah Harari, em "Sapiens", explicou que nações, moedas e religiões funcionam porque milhões de pessoas acreditam nas mesmas ficções. Em "Homo Deus", "21 Lições para o Século 21" e "Nexus", foi além: dados, biologia e poder de computação dão a quem os controla a capacidade de "hackear seres humanos", isto é, prever e conduzir nossas escolhas.

Um desconfiado, um investigador da desconfiança, um professor de ficções. A resposta à pergunta de Jacobson está nos arquivos. Muita gente precisava que Cooper tivesse razão porque os próprios governos já tinham dado motivos de sobra para a desconfiança.

O que os arquivos confirmaram

Juvenal já perguntava em Roma: quem vigia os vigilantes? A história documentada responde com uma lista que, um dia, foi chamada de paranoia.

Em 1974, Richard Nixon renunciou após Watergate: a espionagem política nos bastidores, negada a princípio, foi provada por gravações da própria Casa Branca.

Em 1975 e 1976, o Comitê Church, do Senado americano, revelou abusos da CIA e do FBI, como a vigilância de cidadãos e o programa COINTELPRO contra ativistas, inclusive Martin Luther King Jr. O mesmo comitê documentou relações da CIA com jornalistas e veículos de imprensa: a influência sobre a informação, que soava como fantasia, constava de um relatório oficial.

Em 3 de agosto de 1977, uma audiência conjunta no Senado expôs o MKUltra, programa da CIA de pesquisa sobre modificação de comportamento. Os senadores registraram que a agência aplicou drogas em cidadãos americanos sem seu conhecimento ou consentimento, que dezenas de universidades e instituições foram envolvidas e que boa parte dos arquivos havia sido destruída em 1973, por ordem do então diretor Richard Helms. O que sobrou só veio à tona graças a um pedido pela Lei de Acesso à Informação.

Em 2005, a própria Agência de Segurança Nacional (NSA) liberou um estudo do historiador Robert Hanyok sobre o Golfo de Tonkin: o segundo ataque norte-vietnamita a navios americanos, em 4 de agosto de 1964, usado para obter do Congresso a resolução que ampliou a Guerra do Vietnã, não aconteceu. Uma guerra cresceu, em parte, sobre uma informação errada.

Em 2013, os documentos vazados por Edward Snowden expuseram a coleta em massa de registros telefônicos pela NSA. No mesmo ano, a Receita Federal americana (IRS) reconheceu e pediu desculpas por ter submetido grupos conservadores a escrutínio indevido. E, em dezembro de 2019, o inspetor-geral do Departamento de Justiça, Michael Horowitz, apontou 17 erros ou omissões significativos nos pedidos de vigilância contra Carter Page, ex-assessor da campanha de Trump.

Repare no padrão. Quem foi vigiado, quem foi alvo de escrutínio indevido, quem teve a campanha monitorada com base em pedidos cheios de falhas? Os registros oficiais respondem. Nenhum desses fatos é teoria. E nenhum deles foi revelado pela boa vontade espontânea de quem o praticou. A diferença entre o cético e o paranoico não é o que ele desconfia; é o que ele exige como prova. E as provas, aqui, estão assinadas pelo próprio Estado.

Deep state, pântano e a luz no porão

É sobre esse terreno que Trump popularizou duas expressões hoje conhecidas no mundo inteiro: "deep state", o "Estado profundo", e "drain the swamp", "drenar o pântano". O Estado profundo é a burocracia permanente que ninguém elegeu e que sobrevive a qualquer presidente; o pântano, o ecossistema de Washington onde política, dinheiro e favores se misturam. Os arquivos acima explicam por que essas palavras encontraram ouvidos tão atentos: não nasceram do nada, nasceram da experiência.

E a promessa de abrir o porão foi cumprida em atos concretos. Em janeiro de 2025, Trump assinou a ordem executiva 14176, e em março o Arquivo Nacional publicou dezenas de milhares de páginas sobre o assassinato de John F. Kennedy, sem tarjas, retidas por mais de seis décadas. Em fevereiro de 2025, o Departamento de Justiça divulgou a primeira fase dos arquivos do caso Epstein; em novembro, foi sancionada a lei que obriga a divulgação dos documentos restantes, e milhões de páginas vieram a público.

Esta é a leitura deste editorial: trata-se de uma administração muito transparente, talvez a mais transparente da história moderna americana. O presidente fala diretamente ao público, quase diariamente, em suas redes e em entrevistas abertas, sem filtro e sem intermediários; a sala de imprensa da Casa Branca abriu assento para novos veículos e criadores digitais, quebrando o monopólio de poucos; e documentos que governos anteriores mantiveram fechados por décadas foram entregues ao cidadão. Transparência não é discurso, é hábito, e se mede pelo que se abre também quando incomoda os poderosos.

A manipulação das narrativas

Há uma lição filosófica escondida nessa disputa. Toda ordem que perde poder fabrica uma narrativa para explicar a própria derrota. A do establishment foi simples: Trump seria o bárbaro que destruiria as instituições. As previsões vieram em série: o petróleo a US$ 200, o colapso da economia, o fim da OTAN, o isolamento americano. Os fatos não colaboraram.

O Golfo de Tonkin ensina o que acontece quando uma narrativa conveniente vence os fatos: uma nação inteira entra em guerra. O cidadão inteligente aprende, por isso, a separar o ruído do resultado. O estilo de Trump é direto, muitas vezes desconcertante para quem foi educado na linguagem cifrada das chancelarias. Mas os resultados se medem: a OTAN reorganizada com mais contribuição dos europeus, uma corrida de inteligência artificial liderada por empresas americanas, bolsas que bateram recordes e um mapa energético redesenhado a favor do Ocidente.

O establishment não defendia apenas instituições; defendia o próprio conforto. E conforto, em política, costuma ser o outro nome da acomodação.

O resultado: uma ordem mais dura, e mais clara

A ordem do pós-Guerra Fria prometia um mundo governado por regras e organismos multilaterais. Na prática, conviveu com ditaduras confortáveis, com o terrorismo financiado por Estados e com organizações internacionais incapazes de resolver crises. A nova ordem que nasce agora é menos cerimoniosa e mais honesta: poder se mede em energia, tecnologia, força militar e capacidade de impor custos.

Tucídides escreveu, há 2.400 anos, que "os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem". A Trumpulência não inventou essa regra; apenas parou de fingir que ela não existia. E há uma virtude moral nisso: um mundo que diz a verdade sobre o poder é um mundo em que os cidadãos podem, finalmente, fazer escolhas informadas.

Aqui os dois andares se encontram. O tarifaço, a dissuasão no Golfo e a queda de Maduro são o poder que se vê; os arquivos abertos mostram o poder que se escondia. Quem aprende a ler os dois deixa de ser passageiro assustado e se torna cidadão atento: não acredita em tudo, não descarta tudo, pergunta o que está provado e quem ganhava com o silêncio.

Quem entende a turbulência aperta o cinto, ajusta a rota e chega ao destino. Quem briga com o piloto no meio da tempestade arrisca o voo inteiro.

O mundo precisava de um pouco de Trumpulência. A questão, para o Brasil, é se vamos aprender a voar nela, ou insistir em sofrer com ela.

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