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Política

O alerta foi dado — e o Brasil ainda não ouviu

EditorialBy Editorialoutubro 31, 20269 Mins Read
Congresso Nacional ao entardecer, com uma grande ampulheta em primeiro plano e, no céu, silhuetas esmaecidas de impérios do passado: um navio holandês, o Big Ben e o horizonte de uma cidade americana.
Imagem ilustrativa gerada por IA
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Olá, queridos leitores!

Existe uma verdade que atravessa séculos, impérios e civilizações: nenhuma nação é grande o suficiente para escapar das consequências de suas próprias escolhas.

A História está repleta de sociedades que alcançaram riqueza extraordinária, construíram exércitos poderosos, dominaram o comércio internacional e influenciaram o destino de outros povos. Entretanto, muitas dessas civilizações começaram a perder sua força justamente quando passaram a acreditar que sua posição de poder era permanente.

O problema das grandes potências raramente começa no momento em que perdem sua riqueza. Começa muito antes, quando seus governantes confundem poder com autoridade ilimitada, popularidade com legitimidade e crescimento econômico com prosperidade sustentável.

É nesse contexto que a teoria do investidor americano Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates e autor de Principles for Dealing with the Changing World Order, ganha uma importância extraordinária.

Ao estudar aproximadamente 500 anos de História, Dalio identificou padrões recorrentes na ascensão e no declínio das grandes potências. Sua conclusão merece atenção: a prosperidade de uma nação depende de instituições confiáveis, produtividade, educação, inovação, responsabilidade financeira e estabilidade social. Quando esses fundamentos se enfraquecem simultaneamente, o poder começa a mudar de mãos.

E talvez nenhum país precise refletir sobre essas lições com tanta urgência quanto o Brasil.

O poder não é eterno: A lição dos impérios

A Holanda do século XVII foi uma potência comercial e financeira. Desenvolveu uma das estruturas mercantis mais sofisticadas de seu tempo, dominou rotas marítimas e transformou Amsterdã em um centro financeiro internacional.

Depois veio a Grã-Bretanha, impulsionada pela Revolução Industrial, pelo comércio global e pela força de sua moeda. O Império Britânico chegou a exercer influência sobre uma parcela extraordinária do planeta.

Posteriormente, os Estados Unidos emergiram como a principal potência econômica e militar do mundo, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial.

Essas transformações não aconteceram por acaso. Novas tecnologias, mudanças na produtividade, guerras, endividamento, concorrência internacional e decisões políticas alteraram progressivamente o equilíbrio de poder.

A história ensina que nenhuma posição de liderança está garantida para sempre.

Uma nação não perde sua grandeza simplesmente porque outra cresce. Ela também pode perdê-la quando deixa de cuidar dos fundamentos que a tornaram grande.

O Brasil: Um país rico que insiste em desperdiçar seu potencial

O Brasil possui praticamente tudo o que uma grande economia precisa para prosperar: território, recursos naturais, agricultura competitiva, energia, água, capacidade industrial, mercado consumidor e uma população empreendedora.

Temos condições de ser muito mais do que um fornecedor de matérias-primas para o mundo.

Mas riqueza potencial não é riqueza realizada.

O país continua enfrentando problemas estruturais que atravessam governos: baixa produtividade, educação insuficiente, complexidade tributária, insegurança jurídica, infraestrutura deficiente, gastos públicos rígidos e uma dificuldade histórica de estabelecer um projeto nacional de longo prazo.

O que torna a situação atual particularmente preocupante é a combinação entre fragilidade fiscal, polarização política e perda de confiança.

Segundo os dados divulgados pelo Banco Central em 29 de outubro de 2026, a dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões, equivalente a 82,9% do PIB. O indicador avançou 4,3 pontos percentuais somente no acumulado de 2026.

Outro dado merece atenção: os juros nominais do setor público chegaram a R$ 1,205 trilhão nos últimos 12 meses até setembro, aproximadamente 8,99% do PIB.

Estamos falando de recursos que poderiam ajudar a financiar infraestrutura, educação, segurança, tecnologia e investimentos produtivos.

Não se trata de afirmar que toda dívida pública é irresponsabilidade. Governos podem utilizar crédito para financiar projetos importantes. A questão é saber se o país está produzindo riqueza suficiente para sustentar o custo crescente de suas obrigações.

Quando os juros consomem uma parcela tão elevada dos recursos nacionais, a margem de escolha do governo diminui. E quem paga a conta, direta ou indiretamente, é a sociedade.

O tiro no próprio pé: Quando a estratégia política se torna um problema nacional

O Partido dos Trabalhadores e o governo Lula chegam a este novo período político diante de uma contradição que não pode ser ignorada.

A vitória eleitoral não representa, automaticamente, a conquista da confiança econômica, nem significa que metade da população que votou na oposição tenha desaparecido do cenário nacional.

O Brasil continua profundamente dividido.

Na minha interpretação, a estratégia política do PT, ao apostar na continuidade de um projeto de poder sem apresentar uma resposta suficientemente convincente para o problema fiscal e para a desconfiança de parte expressiva da sociedade, pode acabar se transformando em um tiro no próprio pé.

O que se conquista nas urnas precisa ser sustentado pela capacidade de governar.

Uma eleição não elimina os problemas econômicos, não apaga as divergências sociais e não obriga investidores a acreditar em promessas que ainda não foram transformadas em políticas concretas.

A vitória política pode até representar um momento de celebração para seus vencedores. Mas, quando o país está endividado, dividido e pressionado por expectativas econômicas, começa imediatamente a fase mais difícil: apresentar resultados.

É aqui que a responsabilidade histórica se torna inescapável.

O mercado não vota, mas responde

Existe uma diferença fundamental entre o comportamento eleitoral e o comportamento do capital.

O eleitor escolhe considerando valores, identidade, expectativas, experiências pessoais e projetos políticos. O investidor, por sua vez, avalia risco, retorno, previsibilidade, segurança jurídica, inflação, juros e capacidade de pagamento.

Os dois comportamentos podem produzir resultados muito diferentes.

Após a vitória de Lula no segundo turno de 2026, os mercados brasileiros sofreram uma reação bastante negativa. Em 26 de outubro, o Ibovespa caiu 13,9%, enquanto o real perdeu 8,1% frente ao dólar, segundo a Reuters.

Na Bolsa, investidores estrangeiros retiraram R$ 2,8 bilhões naquele pregão, conforme dados publicados pela imprensa econômica.

É um sinal importante de preocupação e reavaliação de risco.

Mas precisamos fazer uma distinção: esses movimentos não comprovam uma fuga generalizada e permanente de todo o capital estrangeiro. No acumulado de 2026, até os dados então divulgados pela B3, o saldo estrangeiro permanecia positivo em R$ 45,4 bilhões.

O alerta, portanto, está na reação do mercado à incerteza sobre o futuro fiscal e político, não em afirmar que todos os investidores abandonaram o país.

O capital não possui ideologia. Ele procura ambientes nos quais possa trabalhar, crescer e obter retorno com previsibilidade.

Quando essa confiança diminui, o dinheiro fica mais caro. As empresas adiam projetos, o crédito pode encarecer, o câmbio sofre pressão e a economia perde oportunidades.

O investidor não precisa anunciar sua insatisfação em um discurso. Muitas vezes, simplesmente muda a direção de seus recursos.

Uma sociedade dividida não constrói um futuro forte

Talvez o problema mais profundo do Brasil não seja exclusivamente econômico.

É cultural e institucional.

Uma nação precisa de algum grau de confiança compartilhada para avançar. Não é necessário que todos pensem da mesma maneira, votem no mesmo candidato ou defendam as mesmas ideias.

A democracia existe justamente porque somos diferentes.

Mas uma sociedade não consegue prosperar quando a política transforma permanentemente adversários em inimigos, quando a desconfiança substitui o debate e quando cada governo trata o país como propriedade de seu próprio grupo.

A polarização tem custos reais. Dificulta reformas, aumenta a instabilidade, enfraquece a cooperação e torna mais difícil estabelecer políticas públicas que sobrevivam às mudanças de governo.

O Brasil precisa compreender que nenhum partido é maior do que a nação.

A responsabilidade de governar não termina na vitória eleitoral. Começa verdadeiramente no dia seguinte.

O grande teste do PT

O governo Lula enfrenta um desafio que não poderá ser resolvido apenas com discursos, programas de transferência de renda ou disputas narrativas.

Será necessário apresentar um caminho fiscal crível, controlar a trajetória da dívida, melhorar a eficiência do gasto público, estimular investimentos e recuperar a confiança de setores produtivos.

O Fundo Monetário Internacional já havia alertado, em sua avaliação de julho de 2026, para os desafios fiscais brasileiros, recomendando maior eficiência das despesas, redução de gastos tributários ineficientes e fortalecimento de uma estratégia de estabilização da dívida.

Além disso, a força da oposição e dos partidos de centro e direita no Congresso torna a governabilidade mais complexa.

O PT poderá descobrir que conquistar mais um mandato é muito diferente de conseguir governar um país que não lhe concedeu um cheque em branco.

Se a administração insistir em tratar os sinais de alerta como simples resistência política, poderá aprofundar a desconfiança que precisa superar.

E essa seria uma derrota muito maior do que qualquer resultado eleitoral: seria a perda de oportunidades para uma geração inteira.

O Brasil ainda pode escolher outro caminho

É importante dizer: o Brasil não está condenado ao fracasso.

Temos vantagens extraordinárias. O país possui capacidade agrícola, potencial energético, recursos minerais, criatividade empresarial e uma posição estratégica em um mundo que procura diversificar suas cadeias de suprimentos.

Mas essas vantagens precisam ser acompanhadas de responsabilidade.

Precisamos de educação de qualidade, segurança jurídica, liberdade econômica, estabilidade institucional, responsabilidade fiscal e respeito à propriedade privada.

Precisamos também de uma política externa inteligente, capaz de negociar com Estados Unidos, China, Europa e outras economias sem transformar relações comerciais em instrumentos de alinhamento ideológico.

O Brasil não precisa escolher entre ser uma nação soberana e ser uma nação economicamente responsável. Precisa ser as duas coisas.

A História não perdoa a arrogância

Ray Dalio nos convida a observar uma verdade incômoda: grandes potências não entram em declínio somente por causa de seus adversários. Muitas vezes, são enfraquecidas por suas próprias decisões.

A Holanda não deixou de existir quando perdeu sua liderança comercial. A Grã-Bretanha não deixou de ser uma grande nação quando os Estados Unidos assumiram o protagonismo mundial. Mas ambas precisaram aprender a viver em uma ordem internacional diferente.

O Brasil tem uma escolha diante de si.

Pode continuar preso à disputa permanente pelo poder, utilizando a economia como instrumento de sobrevivência política, ou pode finalmente compreender que o desenvolvimento de uma nação exige algo maior do que a permanência de um partido no governo.

A verdadeira grandeza não está em vencer uma eleição e celebrar a derrota do adversário. Está em deixar um país mais próspero, mais livre, mais seguro e institucionalmente mais forte do que aquele que se recebeu.

Talvez o maior erro de qualquer governante seja acreditar que o poder conquistado lhe pertence.

Não pertence. O poder é temporário. A nação permanece.

E existe uma diferença enorme entre governar para a próxima eleição e governar pensando nas próximas gerações.

O Brasil não precisa de salvadores, nem de donos. Precisa de instituições fortes, cidadãos livres, governantes responsáveis e um projeto de país que sobreviva aos partidos.

Porque, no final, a História não pergunta quantas vezes um governante venceu. Pergunta o que ele construiu enquanto teve a oportunidade de governar.

E essa é uma pergunta que nenhum partido, por mais poderoso que se considere, conseguirá evitar para sempre.

Editorial
VOZ Insight Magazine — Edição 24

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