Seis dias depois das urnas, o Brasil tem um presidente reeleito e um vizinho poderoso que finge não ter ouvido. Em 25 de outubro, Lula venceu o segundo turno com 51,79% dos votos válidos (64.256.232 votos), contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (59.826.041), segundo a totalização oficial do TSE, que declarou a eleição dentro da normalidade. Líderes de todo o continente, inclusive governos de direita alinhados a Washington, como os de Chile, Peru, Bolívia e Paraguai, cumprimentaram o vencedor em poucas horas. A Casa Branca, não.
Em 29 de outubro, Donald Trump chamou a eleição de “vergonhosa”, sem apresentar provas, e, perguntado sobre quem venceu, respondeu: “Não quero comentar isso agora”. Antes, já havia dito: “Eu gosto do Lula. Tenho uma relação muito boa com ele, mas a prorrogação concedida foi muito estranha”. O próprio TSE informou que cerca de 34 mil votos foram registrados após as 17h, 0,03% do total, numa disputa decidida por mais de 4 milhões. Um relatório da embaixada americana em Brasília chamou a vitória de “definitiva”. Em 30 de outubro, em Atlanta, o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado Marco Rubio conversaram brevemente e combinaram uma reunião antes da cúpula do G20, em dezembro.
O mundo inteiro ouviu o silêncio de Washington. A pergunta é o que esse silêncio diz.
O pano de fundo: um continente que se reorganizou sem o Brasil
O silêncio tem contexto. Em março de 2026, o governo Trump lançou o Escudo das Américas, uma coalizão contra o narcotráfico que reúne inteligência, operações coordenadas e sanções financeiras. Em 12 de agosto, no Panamá, o secretário Pete Hegseth anunciou a entrada da Colômbia, ao lado de outros 18 países, e a autorização de “operações militares conjuntas” pelo governo de Abelardo de la Espriella. No mesmo dia, a Casa Branca assinou um memorando que permite a empresas privadas contratadas conduzir operações cibernéticas contra organizações criminosas estrangeiras. O prazo para as regras venceu em 11 de outubro. Até agora, não há registro público das regras finais.
Em 22 de setembro, à margem da Assembleia Geral da ONU, 15 países do grupo, liderados pelos EUA, assinaram um comunicado para sancionar 24 organizações classificadas como “narcoterroristas”, entre elas o PCC e o Comando Vermelho, e propuseram consultar a OEA sobre a reativação do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, o velho Tratado do Rio. O Brasil, como o México, ficou de fora.
As facções brasileiras já estavam na mira. Em 28 de maio, o Departamento de Estado designou PCC e CV como organizações terroristas, com vigência em 5 de junho. Em 1º de julho, o Tesouro americano sancionou pessoas e empresas acusadas de ligação com o PCC.
“Os cartéis estão todos no Brasil”? O que dizem as investigações
Os fatos documentados não confirmam esse exagero, que circula nas redes, mas também não permitem tranquilidade. A Polícia Civil de Roraima informou que a facção venezuelana Tren de Aragua cresce no país desde 2018. Em junho, a Operação Rota do Norte cumpriu mandados em seis estados e apontou lavagem de dinheiro com criptomoedas e o fornecimento de armas pesadas a núcleos do Comando Vermelho. Investigadores descrevem parcerias, de grau ainda não totalmente conhecido, entre o grupo venezuelano, o PCC e o CV. No sentido inverso, um relatório da Polícia Federal enviado ao STF descreve o CV atuando no Paraguai, na Bolívia, no Peru e na Colômbia. O retrato honesto, portanto, não é o de “todos os cartéis” chegando ao país. É o de um mercado criminoso internacionalizado, com o Brasil ao mesmo tempo como rota, sede e exportador de facções. Em outras palavras, cartéis e facções da América do Sul hoje se hospedam no Brasil: encontram aqui abrigo, rota e mercado.
O caminho não tomado: e se Flávio tivesse vencido?
A história não admite ensaios, mas admite exercícios de imaginação responsável. As propostas de Flávio Bolsonaro foram públicas e explícitas. Em 26 de maio, depois de encontrar Trump no Salão Oval, disse ter pedido a classificação de PCC e CV como terroristas: “As facções são uma espécie de governo paralelo”, afirmou, defendendo acordos com “Estados Unidos, Europa, Israel e Argentina”. Dois dias depois, a designação saiu. Em 16 de outubro, em entrevista à TV Globo, prometeu: “O Brasil vai fazer parte do Escudo das Américas” e “Vou declarar CV, PCC e milícias como narcoterroristas”, além de uma reunião com chefes militares e policiais “para declarar guerra ao narcotráfico” e prioridade à Tríplice Fronteira. Em conversa gravada com o presidente colombiano, falou em “cooperação com a Colômbia e com os demais países” contra “essas facções narcoterroristas”.
O que a adesão teria mudado? A experiência dos membros oferece pistas. No Equador, a polícia, com apoio da DEA e do Comando Sur, desmontou redes ligadas a Los Lobos e ao Cartel Jalisco Nova Geração em 2026, com dezenas de presos, pistas clandestinas desativadas e toneladas de cocaína interceptadas em alto-mar com a Guarda Costeira americana. Em março, forças americanas e equatorianas bombardearam um acampamento de traficantes perto da fronteira colombiana. Para o Brasil, isso significaria mais inteligência compartilhada, rastreamento financeiro integrado, pressão sobre a lavagem de dinheiro e talvez operações conjuntas nas fronteiras amazônicas e na Tríplice Fronteira.
Os custos também são reais. A lei brasileira não prevê a categoria de “narcoterrorismo”, e a promessa dependeria do Congresso, não de um decreto. Operações com forças estrangeiras em solo nacional tocam o coração da soberania, e o Equador mostra o dilema: em 2025, um referendo manteve a proibição constitucional de bases estrangeiras, e mesmo assim a presença militar americana cresceu por meio de operações “temporárias”. Bombardeios “cinéticos” levantam perguntas sobre vítimas civis, devido processo e direitos humanos. E nenhum desses países demonstrou ainda que a militarização reduz, de forma duradoura, o fluxo de drogas. O mais provável é que o crime mudasse de rota, como sempre fez. A pergunta honesta não é se o Escudo resolveria tudo, mas quanto de soberania se aceita trocar por quanto de eficácia.
O caminho tomado: o que Lula disse e fez
O governo Lula escolheu outra via e a defendeu em público. Em 15 de outubro, também na TV Globo, o presidente afirmou: “Tanto o PCC quanto o Comando Vermelho são terroristas para a comunidade brasileira, para os bairros brasileiros e para as cidades, mas não são o tipo de terrorismo de Estado que os Estados Unidos querem caracterizar”. Disse que as facções “só querem dinheiro” e que entregou a Trump, por escrito, uma proposta de cooperação contra o narcotráfico baseada na experiência da Polícia Federal. Sobre o Escudo, o governo deixou claro que o Brasil prefere a cooperação entre polícias à presença de forças estrangeiras. O assessor Celso Amorim já havia dito que criar um “pretexto para intervenção é inaceitável”.
No plano interno, o governo aposta na Lei Antifacção, que endurece penas, e na PEC da Segurança Pública. “Eu agora quero me meter”, disse Lula sobre a atuação da União na segurança, área até hoje dos estados. Em 22 de maio, prometeu: “Se essa PEC for aprovada no Senado, 15 dias depois eu crio o Ministério da Segurança Pública”. A PEC inscreve na Constituição o Sistema Único de Segurança Pública, amplia o papel da Polícia Federal contra facções interestaduais e restringe benefícios penais a seus líderes. O Senado marcou a votação para 3 de novembro.
Os críticos dizem que é pouco e tarde. Os defensores, que é a via possível sem abrir a porta a tropas estrangeiras. Ambos concordam num ponto: a eficácia será medida em territórios retomados, não em discursos.
O espelho venezuelano
Nas redes, uma pergunta circula sem rodeios: um governante que aceitasse dinheiro do narcotráfico poderia acabar como cúmplice de chefes do crime e terminar seus dias como Nicolás Maduro? A pergunta merece resposta séria. E a resposta séria começa por uma afirmação: não há qualquer indício público de vínculo de nenhum governante brasileiro, de qualquer partido, com facções criminosas. O que segue é um princípio geral, não uma acusação.
Primeiro, os fatos de Caracas. Em março de 2020, procuradores federais de Nova York acusaram Maduro de narcoterrorismo, com recompensa de US$ 15 milhões, elevada a US$ 25 milhões em janeiro de 2025 e a US$ 50 milhões em agosto. Em julho de 2025, o Tesouro designou o Cartel de los Soles como entidade terrorista global. Em novembro, o Departamento de Estado o classificou como organização terrorista estrangeira chefiada por Maduro, o que Caracas nega. Em 3 de janeiro de 2026, forças americanas o capturaram em Caracas. Dois dias depois, em Manhattan, ele se declarou inocente e contestou a legalidade da captura.
Depois, o caminho jurídico, que vale para qualquer país. Uma vez que uma facção é designada organização terrorista, a lei americana 18 U.S.C. § 2339B pune com até 20 anos de prisão quem lhe dá “apoio material”, e dinheiro é apoio material, tanto para quem dá quanto para quem facilita. A Ordem Executiva 13224 permite sancionar bancos estrangeiros. A lei Global Magnitsky alcança autoridades acusadas de corrupção, e o Brasil já a viu aplicada: o Tesouro sancionou o ministro Alexandre de Moraes em 30 de julho de 2025 e retirou a sanção em 12 de dezembro. Com PCC e CV na lista desde junho, qualquer agente público, em qualquer país, que se tornasse sócio dessas facções passaria a ser, para Washington, um apoiador de terroristas. A escada de Maduro, de sanções, acusação, recompensa e força, deixa de ser exceção e passa a ser método.
Mas a Venezuela só chegou ao último degrau porque suas instituições já tinham caído. Washington não reconhecia o governo, e o Departamento de Estado escreveu que o cartel “corrompeu” Forças Armadas, inteligência, Legislativo e Judiciário. O Brasil acaba de realizar uma eleição auditada, reconhecida até pela embaixada americana, e mantém Judiciário independente, Congresso ativo, imprensa livre e uma Polícia Federal que investiga facções em operações públicas.
A filosofia acrescenta o que a lei não diz. Platão contou, na República, o mito do anel de Giges: o que faria um homem se pudesse agir invisível? O dinheiro do crime oferece justamente essa invisibilidade, e cobra por ela a liberdade de quem o aceita. Quem recebe passa a dever, e quem deve deixa de governar. Hannah Arendt lembrava que a ruína das repúblicas raramente vem de um golpe súbito, mas da banalização do inaceitável. Montesquieu ensinou que só o poder detém o poder. Enquanto os freios brasileiros funcionarem, o espelho venezuelano serve de advertência, não de profecia.
O que fica quando o barulho passa
Os gregos distinguiam a doxa, a opinião que circula, da episteme, o conhecimento que se sustenta. A eleição, o Escudo, as designações e a captura de Maduro são episteme: têm data, documento e registro. Os boatos de fraude, sem provas, continuam sendo doxa.
O Brasil saiu das urnas diante de uma escolha antiga: ser sujeito ou objeto da própria história. Maquiavel escreveu que quem depende da boa vontade alheia vive à mercê da fortuna. Soberania não se proclama. Ela se constrói com instituições confiáveis, diplomacia ativa, defesa crível e combate sério ao crime organizado. Se o país não ocupar os territórios que o Estado abandonou, outros, de dentro ou de fora, se sentirão autorizados a ocupá-los.
O mundo inteiro ouviu o silêncio de Washington. Resta saber se o Brasil vai ouvir a pergunta que ele esconde: quem cuida da casa quando o vizinho começa a medir a cerca?
Editorial
VOZ Insight Magazine
