A vitória
Em 27 de outubro de 2026, os israelenses foram às urnas com uma participação de 77,9%, a maior em anos. Segundo os resultados finais publicados pelo Comitê Central de Eleições, o Likud, de Benjamin Netanyahu, conquistou 27 das 120 cadeiras do Knesset e voltou a ser, com folga, o maior partido do país. O segundo colocado, o Yashar, de Gadi Eisenkot, ficou com 21.
O bloco liderado por Netanyahu somou 53 cadeiras, contra 48 da oposição, segundo o Jerusalem Post e o New York Post. Faltam oito para a maioria de 61, e o resultado oficial será entregue ao presidente Isaac Herzog em 4 de novembro. Começa agora a parte mais difícil da democracia parlamentar: transformar votos em governo.
Mas o número que importa vai além da aritmética. Depois de anos de guerra, processos, protestos e uma campanha internacional contra seu nome, Netanyahu continua sendo o político em quem mais israelenses depositam o voto. Isso diz algo sobre ele, e diz algo ainda maior sobre o povo que o escolhe.

O soldado e o irmão
Benjamin Netanyahu nasceu em Tel Aviv, em 1949. Serviu na Sayeret Matkal, a unidade de elite das Forças de Defesa de Israel, e participou em 1972 do resgate dos reféns do voo 571 da Sabena, operação em que foi ferido.
Quatro anos depois, a história lhe impôs uma marca definitiva. Seu irmão mais velho, Yonatan, o Yoni, comandou a Operação Entebbe, em Uganda, que libertou mais de cem reféns em julho de 1976. Yoni foi o único soldado israelense morto na ação.
Aristóteles dizia que a coragem é o meio-termo entre a covardia e a temeridade. Não é ausência de medo, é saber o que vale a pena temer. Quem perde um irmão defendendo inocentes aprende cedo essa distinção. Talvez esteja aí a chave para entender o homem: para Netanyahu, o terrorismo nunca foi tema de seminário. Foi luto de família.
A voz de Israel no mundo
Nos anos 1980, foi embaixador de Israel na ONU, entre 1984 e 1988. Ali descobriu que guerras também se vencem com palavras. Fluente em inglês, formado no MIT, tornou-se o rosto de Israel na televisão americana.
Em 1996 venceu a primeira eleição direta para primeiro-ministro, aos 46 anos, o mais jovem a ocupar o cargo. Voltou ao poder em 2009, governou até 2021 e retornou no fim de 2022. Somados os mandatos, é o primeiro-ministro que mais tempo governou Israel, superando o fundador David Ben-Gurion.

O estadista
Em 2020, Israel assinou os Acordos de Abraão com Emirados Árabes Unidos e Bahrein, depois ampliados com Marrocos e Sudão, com mediação do governo de Donald Trump. Durante décadas, especialistas repetiram que a paz com o mundo árabe só viria depois da questão palestina. Netanyahu e Trump inverteram a equação, e os acordos sobreviveram até mesmo à guerra.
Sobre o Irã, Netanyahu passou anos alertando, às vezes sozinho, sobre o programa nuclear de Teerã. Muitos o chamaram de alarmista. Em junho de 2025, Israel atacou instalações nucleares e militares iranianas, e os Estados Unidos também atingiram alvos nucleares no país. O que antes era tratado como obsessão passou a ser reconhecido por aliados como ameaça real.
O 7 de outubro
Em 7 de outubro de 2023, o Hamas atacou o sul de Israel e matou cerca de 1.200 pessoas, no pior massacre de judeus desde o Holocausto, além de sequestrar mais de 250 reféns. Foi a hora mais escura do país e também do governo.
Críticos perguntaram, com legitimidade, como a inteligência falhou. Netanyahu respondeu com a guerra contra o Hamas, contra o Hezbollah no Líbano e, depois, contra o próprio Irã. Pode-se discutir cada decisão. Mas é difícil negar que o equilíbrio de forças no Oriente Médio mudou a favor de Israel.
Maquiavel escreveu que é mais seguro ser temido do que amado, quando não se pode ser os dois. Churchill, mais generoso, lembrava que a coragem é a primeira das qualidades humanas, porque garante todas as outras. Entre a frieza do florentino e a firmeza do britânico, Netanyahu escolheu ser respeitado pelos inimigos de Israel, mesmo ao custo de ser incompreendido pelos amigos.
As controvérsias
Nenhum perfil honesto pode ignorá-las. Desde 2020, Netanyahu responde a um processo no Tribunal Distrital de Jerusalém, nos chamados Casos 1000, 2000 e 4000, com acusações de fraude, quebra de confiança e, em um deles, suborno. Ele nega todas as acusações, declarou-se inocente e chama o processo de perseguição. Não há condenação. Segundo o Times of Israel, os próprios juízes sugeriram mais de uma vez que a promotoria reconsiderasse a acusação de suborno. Em novembro de 2025, ele pediu perdão presidencial a Herzog sem admitir culpa, e o pedido segue sem decisão.
A pergunta que se impõe é: um processo que se arrasta por mais de seis anos, enquanto o réu governa um país em guerra, serve à justiça ou à política?
Houve ainda os protestos de 2023 contra a reforma judicial, que levaram centenas de milhares às ruas. E, em novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de prisão contra Netanyahu e seu ex-ministro da Defesa, decisão que Israel não reconhece, por não ser membro do tribunal, e que os Estados Unidos rejeitaram com firmeza.
O viés
É aqui que o leitor precisa pensar com cuidado. Poucos líderes democráticos foram tão constantemente retratados de forma negativa pela imprensa internacional. Um líder eleito repetidas vezes por seu povo, em eleições livres, é frequentemente descrito como ameaça à democracia. Um país atacado é frequentemente tratado como réu.
Não se trata de dizer que ele está acima da crítica. Nenhum governante está. Trata-se de perguntar por que a mesma régua não vale para todos. Por que um tribunal internacional age com rapidez contra o líder de uma democracia, enquanto líderes de regimes que financiam o terror seguem circulando? Por que as reportagens sobre Gaza raramente começam pelo 7 de outubro?
O próprio resultado eleitoral é uma resposta. Os israelenses, que vivem sob foguetes e conhecem o vizinho, enxergam algo que muitos analistas distantes não enxergam.
A necessidade da coragem
Israel é um país do tamanho de Sergipe, cercado por quem já declarou desejar seu desaparecimento. Num lugar assim, liderança não é luxo, é sobrevivência. Um primeiro-ministro hesitante pode custar vidas. Um primeiro-ministro corajoso pode salvá-las, mesmo pagando um preço pessoal altíssimo.
Netanyahu tem defeitos, como todo ser humano. Mas tem aquilo que Aristóteles chamava de phronesis, a prudência prática, a capacidade de agir certo no momento certo, unida à coragem de agir quando todos mandam esperar.
Lições para o leitor
A primeira lição é que a coragem raramente é aplaudida no momento em que acontece. Ela costuma ser reconhecida depois, quando o perigo já passou e todos esquecem quem o enfrentou.
A segunda é que o poder pesa. Quem governa carrega mortes, decisões impossíveis e críticas diárias. Julgar é fácil. Decidir é outra coisa.
A terceira é que a democracia pertence ao eleitor, e não às manchetes. Quem vota sob ameaça sabe o que está escolhendo.
Nos próximos dias, Israel verá se Netanyahu consegue formar mais um governo. Qualquer que seja o desfecho, sua trajetória já ensina que há líderes que administram o tempo e há líderes que enfrentam a história. Israel, hoje, precisa dos segundos.
Editorial / VOZ Insight Magazine
