O perigo não está no discurso. Está na ideologia que trata o poder como direito adquirido e o ser humano como matéria-prima.
Lula fez na Assembleia Geral o que sempre soube fazer: moralizar em público e proteger, na prática, o esquema. O Brasil entra numa eleição decisiva. Brasília, neste momento, não é só adversária eleitoral. É inimiga da liberdade — e o presidente brasileiro apoia, de cara limpa, a gramática do extremismo.
Lula e o chavismo compartilham o método. Chame pelo nome: a velha esquerda latino-americana que aprendeu a falar a língua dos pobres enquanto constrói máquinas que deixam os pobres exatamente onde estão — dependentes e assustados —, porque pobreza e dependência trazem voto.
A Venezuela foi o produto pronto. Prateleiras vazias. Hospitais desabando. Milhões que votaram com os pés. Presos políticos. Uma eleição que o regime recusou-se a perder. Maduro não inventou o manual; herdou-o de Chávez e levou-o até o fundo. Em janeiro, os Estados Unidos o tiraram do palácio e o colocaram numa prisão em Brooklyn, sob acusação de narcotráfico. A figura do ditador foi para a cadeia. O que Washington fez em seguida, porém, não foi entregar o país à oposição que pagou o preço da resistência: deixou Delcy Rodríguez no poder. Lula repetiu ontem na ONU que o povo venezuelano “merece definir o próprio destino”, como se esse destino não tivesse sido, por duas décadas, sequestrado pelo próprio regime — e como se a frase, agora, não servisse para lavar a continuidade do aparelho com verniz de soberania. A ideologia sobrevive porque nunca precisou entregar resultado. Precisou apenas destruir o país a qualquer custo, tendo como alvos quem apontava o escombro e quem fazia o cidadão comum progredir.
Lula, o malandro brasileiro, o político de mesa de bar no modo Gerson, apresentou uma atuação mal costurada. Subiu à tribuna, admitiu que a credibilidade da ONU “nunca esteve tão baixa” e, no mesmo fôlego, empurrou a narrativa que a Assembleia sabe aplaudir. É o método: linguagem moral em público e lealdade política a comunistas, narcotraficantes e a quem normaliza o terror.
A causa palestina rende em Nova York. A aliança com o que restou do chavismo incomoda Brasília só quando o custo aparece. Bandido tem medo da justiça dos homens. O que assusta de verdade é o critério por trás do aplauso.
Linguagem moral em público. Lealdade política a comunistas, narcotraficantes e terroristas.
A teocracia com bandeira vermelha
Lula trata como interlocução soberana o que, na prática, é vizinhança com teocracia armada. O Irã não é socialismo. Mas, para Lula, o método se justifica pela ideologia. Quem normaliza a chacina de cidadãos — como a repressão letal aos protestos iranianos neste ciclo de 2025 e 2026 — normaliza o instrumento. O perigo para o Brasil não é retórico. É o IRGC: milícia de Estado, exportadora de terror. O Hamas não é movimento de bairro; é organização que estupra, sequestra e usa civis como escudos.
No discurso, Lula falou em “genocídio” do governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza e, numa frase protocolar, citou os “atos terroristas do Hamas” — os mesmos que ele minimizou no começo da guerra, aos quais enviou condolências e cujo campo de alianças levou o vice-presidente brasileiro a Teerã. A sala aplaude o primeiro bloco. O segundo existe só para o texto parecer sério. A prioridade política fica com o que rende ovação.
Esse é o truque antigo: trocar o nome do crime para não ter de condenar o criminoso. Teocracia com bandeira vermelha continua teocracia. Terrorista com comunicado de libertação continua terrorista.

O abraço em Nova York
No dia anterior ao discurso, Lula fez questão de receber o prefeito Zohran Mamdani na residência do Brasil na ONU. Trocou camisa do Corinthians, gravou vídeo, falou de custo de vida e de “colocar o pobre no orçamento”. A foto oficial vende afeto. A leitura política é outra.
Não há ata pública dizendo que Lula levou recado do IRGC ou do Hamas. Quem afirma isso como fato inventa o que não está no comunicado. O que está nele, porém, já basta para quem sabe ler sinais. Num país onde dirigentes da Guarda Revolucionária e operadores do Hamas não podem pôr os pés, o presidente brasileiro corre para o aliado local da mesma gramática: Israel como vilão permanente, o Hamas como assunto a ser minimizado, e a América como império a ser constrangido. Mamdani já hesitou quando perguntado se o Hamas deveria largar as armas; depois chamou o grupo de terrorista quando o slogan estourou nas ruas de Nova York. O padrão é o mesmo do palanque da ONU: condenação tática, prioridade estratégica.
Amizade com antiamericanos e com quem normaliza o terror não precisa de mala diplomática lacrada. Precisa de palco, de foto e de redes que o embargo não alcança. Quem não entra nos Estados Unidos manda a narrativa por quem já está dentro. O encontro não prova correio secreto. Provoca a pergunta que um país sério deveria fazer: por que essa era a agenda urgente na véspera da Assembleia — e não o isolamento inequívoco de quem financia decapitação e sequestro?
O encontro não prova correio secreto. Provoca a pergunta que um país sério deveria fazer.
A mesma régua em casa — e o PCC no mapa do terror
Instituição vira troféu, não limite. Tribunal, eleição, imprensa, a própria ONU — úteis quando entregam o resultado certo, descartáveis quando não o fazem. Maduro mostrou o que acontece quando a máscara cai. No Brasil, a tese é testada com mais tecido e mais maquiagem.
A “saidinha” não foi mero detalhe de código penal; foi escolha. Lula vetou a restrição e depois chamou a decisão de “muito moral”, argumentando que a família se recupera e lembrando que ele mesmo passou 580 dias preso e conhece o valor de uma visita. Pode-se discutir ressocialização sem ser ingênuo. Não se pode fingir que a rua não paga a fatura dessa tese: o preso que sai e reincide, a mulher que volta a correr risco, a cidade que vira laboratório de teoria. O Congresso derrubou o veto. A tese, não.
Sobre o ladrão de celular, a famigerada “cervejinha” que circula nas redes é montagem — dois trechos de 2017 colados para parecer uma frase só. Isso precisa ser dito. O que Lula de fato disse, contudo, já revela o mapa: atribuiu a “indústria de roubar celular” à desesperança, ao emprego perdido, à casinha que evaporou. Pobreza explica pressão. Não explica facção, não explica latrocínio, não explica homicídio por um aparelho. Quando o diagnóstico vira desculpa, a vítima some do centro da frase.
É o mesmo padrão dos “amigos”. O regime que fuzila a oposição vira parceiro. A facção que manda no presídio vira “questão social”. O trabalhador brasileiro que vê a moeda e a rua se deteriorarem ouve que o problema de verdade está sempre em outro lugar — em Washington, no FMI ou no “fascismo”.
Ontem, enquanto Lula recusava “porta-aviões vigiando nossas águas”, 14 países do Escudo das Américas — Argentina, Colômbia, Equador, Paraguai, Chile, El Salvador e outros — acompanharam os Estados Unidos e incluíram o PCC e o Comando Vermelho numa lista de 24 organizações tratadas como narcoterroristas. Congelamento de bens, restrição de vistos, responsabilização de quem der apoio material. O Brasil ficou de fora. Lula não aceita o rótulo. Prefere dizer que a Lei Antifacção já impõe penas “superiores às previstas para o terrorismo” — como se o nome do crime fosse detalhe de cartório, e não reconhecimento de que o PCC já não é só quadrilha de presídio. É milícia transnacional, exporta cocaína, lava dinheiro, aterroriza cidade e já invadiu o cotidiano brasileiro com a mesma lógica que o chavismo usou para invadir o Estado: primeiro a desculpa social, depois o território, depois o medo.
O Brasil está encurralado não porque Washington inventou o PCC. Está encurralado porque o governo insiste em tratar como “crime comum” o que já opera como poder paralelo — e porque a diplomacia lulista prefere constranger a América a isolar o narcoterror.
Três alarmes
Essa ideologia faz três coisas que deveriam alarmar quem ainda acredita que a nação existe para proteger o próprio povo.
Torna o sofrimento seletivo. Criança em Gaza vira causa; criança na favela venezuelana, numa prisão cubana ou numa rua tomada pelo PCC vira incômodo. O refém israelense vira nota de rodapé; o brasileiro assaltado vira estatística de desesperança.
Corrói os limites institucionais. Quem admira o modelo em que a eleição só vale se o regime ganhar acaba importando o hábito, mesmo sem copiar o desastre de uma vez só. Lula transformou a tribuna da ONU em palanque de 4 de outubro: “democracia e negacionismo”. Quem discorda não é oposição. É inimigo interno associado a “interesses estrangeiros”.
Exporta o problema. Um Estado falido não fica contido. Exporta gente, crime, narcotráfico e contágio político. O Brasil ainda não é a Venezuela. Mas ideologia viaja mais rápido que fronteira, e recado político viaja mais rápido que visto. O PCC já provou isso sem precisar de embaixada.
O saldo
Nada disso exige fingir que o outro lado é santo. Corrupção existe em todo lugar, o mercado falha e a guerra é feia. O ponto é mais simples: uma ideologia que não consegue olhar para o próprio saldo de mortos — em Caracas, em Teerã, em Gaza, no 7 de Outubro ou nas ruas brasileiras — sem mudar de assunto não é um projeto de paz. É um esquema de proteção com branding melhor.
O aplauso na Assembleia Geral mostrou qual história está na moda. As cidades esvaziadas da Venezuela mostram qual história é verdadeira. O IRGC e o Hamas mostram o preço de chamar teocracia de causa. O abraço com Mamdani mostra qual porta se abre quando a outra está fechada. A saidinha e a tese da desesperança mostram o preço de chamar brandura de humanidade. A recusa em chamar PCC e CV pelo nome que 14 países já aceitaram mostra o preço de chamar soberania o que, na prática, é omissão.
Um país sério não confunde essas coisas. Direitos humanos não podem ser seletivos. A vida de uma criança palestina tem valor; a de uma criança israelense também; a de um trabalhador brasileiro, da mesma forma. Quem recusa essa clareza não está defendendo o pobre. Está protegendo o esquema que vive do pobre — e dos aplausos certos, na hora certa, no palco certo.
Não basta ser comunista. Quando o comunismo se alia ao narcotráfico, à teocracia e ao terror, o que sobra não é esquerda. É ocupação. E ocupação, no Brasil de 2026, já não é metáfora.
