Editorial / VOZ Insight Magazine
Há uma velha lição que a filosofia ensina desde Platão: a opinião não é a verdade. A opinião é barulhenta, muda de humor e se espalha depressa. A verdade é paciente, chega em silêncio e, quando chega, ninguém consegue apagá-la. Nesta terça-feira, 3 de novembro, os Estados Unidos vão às urnas para a eleição de meio de mandato, e mais uma vez o país terá a chance de mostrar a diferença entre as duas.
O QUE ESTÁ EM JOGO
Estão em disputa todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, 35 das 100 cadeiras do Senado e 36 governos estaduais. Segundo a ABC News e o Clerk da Câmara, os republicanos chegam ao dia da eleição com 218 deputados, contra 214 democratas, um independente, Kevin Kiley, da Califórnia, que continua votando com a bancada republicana, e duas cadeiras vagas. Na prática, o presidente da Câmara, Mike Johnson, começa a noite com vantagem de 220 a 215. Para conquistar a maioria de 218, os democratas precisam de um ganho líquido de três cadeiras.
No Senado, a vantagem republicana é mais confortável: 53 a 47, contando os dois independentes que votam com os democratas. Como lembra a ABC News, o líder John Thune pode perder até três cadeiras e ainda manter o controle, graças ao voto de desempate do vice-presidente JD Vance. Aos democratas, é preciso ganhar quatro.

O QUE DIZEM OS NÚMEROS
Não vamos esconder o placar das pesquisas, porque o leitor da VOZ merece fatos. A média de Nate Silver, do Silver Bulletin, aponta os democratas 8,9 pontos à frente na pergunta sobre em qual partido o eleitor vai votar para o Congresso. O modelo dele dá aos democratas 95% de chance de levar a Câmara e 80% de levar o Senado, segundo o Axios. O Cook Political Report favorece os democratas em 222 distritos, com 18 disputas consideradas empatadas. Na plataforma de apostas Kalshi, a chance de os democratas conquistarem as duas Casas estava em 73%.
O Axios chegou a falar em “tsunami azul”. É uma expressão forte. Mas é justamente aqui que a filosofia entra em cena.
A LIÇÃO QUE AS PESQUISAS AINDA NÃO APRENDERAM
Em 2016, praticamente todos os institutos davam a vitória a Hillary Clinton. Donald Trump venceu. Em 2020, as pesquisas superestimaram os democratas, e não fomos nós que dissemos isso: foi o próprio setor de pesquisas, em suas revisões depois da eleição. Em 2024, de novo, o presidente Trump superou o que os números indicavam e venceu também no voto popular.
E o alerta vem de dentro da própria imprensa americana. Nate Cohn, chefe de pesquisas do New York Times, avisou, segundo o Axios, que eleitores democratas brancos foram cerca de 30% mais propensos que republicanos brancos a responder às últimas pesquisas Times/Siena, uma diferença ainda maior que a de 2020, quando os números erraram a favor dos democratas. O Washington Post fez alerta parecido sobre o Kansas, onde os democratas registrados participaram das pesquisas mais que o dobro do que os republicanos.
Ou seja: quem responde ao telefone não é necessariamente quem vai às urnas. O eleitor conservador americano, que trabalha, que desconfia da grande mídia e que não perde tempo explicando seu voto a um desconhecido, costuma falar no único lugar onde a palavra dele vale de verdade: na cabine de votação.
O próprio Mike Johnson disse na segunda-feira, segundo o Axios, que a ideia de uma onda azul está sendo construída com números de pesquisa para desanimar o eleitor republicano. E vale lembrar que as próprias casas de apostas, tão celebradas, também erram: o Axios lembra que a Kalshi dava 96% de chance a uma candidata nas primárias de Wisconsin que acabou derrotada.
A HISTÓRIA ENSINA, MAS NÃO CONDENA
É verdade que o partido do presidente costuma perder cadeiras nas eleições de meio de mandato. Em 1994, os democratas de Bill Clinton perderam 54 cadeiras na Câmara. Em 2010, os democratas de Barack Obama perderam 63. Em 2018, os republicanos, no primeiro mandato de Trump, perderam 40.
Mas a história também tem exceções, e elas ensinam muito. Em 1998, o partido de Clinton ganhou cinco cadeiras. Em 2002, depois do 11 de setembro, os republicanos de George W. Bush ganharam oito. A regra não é uma lei da natureza. Ela depende de quanto o eleitor sente que o país está no rumo certo.
E o rumo, sob o presidente Trump, foi definido com clareza: fronteira sob controle, defesa da soberania nacional, enfrentamento à burocracia de Washington e prioridade para o trabalhador americano. Um governo que diz o que vai fazer e faz o que disse. O eleitor pode concordar ou não, mas ninguém pode dizer que não sabe o que está escolhendo.
O SILÊNCIO DE QUEM VOTA
Os números de participação já impressionam. Segundo a Associated Press, citada pela Fox News, mais de 54 milhões de americanos votaram antecipadamente, quase nove milhões a mais que em 2022, o recorde anterior para uma eleição de meio de mandato. É a democracia americana em pleno funcionamento: barulhenta nas redes, mas decidida nas urnas.
Os liberais fazem barulho. Ocupam programas de televisão, viralizam vídeos, transformam cada pesquisa em manchete de vitória antecipada. Fazem isso há dez anos. E há dez anos a verdade tem o hábito incômodo de aparecer na contagem dos votos.
A LIÇÃO PARA O LEITOR BRASILEIRO
Para quem acompanha daqui, do Brasil ou da comunidade brasileira nos Estados Unidos, há uma reflexão importante. Uma democracia madura não se mede pela gritaria, mas pelo respeito ao resultado. Nos Estados Unidos, a eleição de meio de mandato é o grande termômetro do apoio ao presidente. Por isso ela importa tanto: é o momento em que o povo americano diz, sem intermediários, se quer ou não dar ao presidente Trump um Congresso para continuar o trabalho.
Se os republicanos mantiverem a Câmara, contrariando a quase totalidade das previsões, será a maior prova de que o apoio ao presidente é mais profundo do que os institutos conseguem medir. Se perderem cadeiras, como manda a tradição histórica, a lição será outra, e também deverá ser respeitada, como os americanos sempre fizeram.
Sócrates dizia que só sabe que nada sabe. Seria bom que analistas, institutos e comentaristas aprendessem um pouco dessa humildade antes de anunciar resultados que ainda não existem. Hoje, quem fala é o povo americano. E, como sempre, a verdade aparece.
A VOZ Insight Magazine atualizará este artigo com os resultados oficiais assim que forem divulgados.
