Há uma pergunta antiga que a tecnologia moderna tornou urgente: quando uma ferramenta mata, quem é o culpado? A faca, ou a mão que a segura? A resposta parece óbvia. Mas, em um tempo em que as ferramentas pensam, escrevem e enxergam através das paredes de um celular, muita gente começou a esquecê-la.
Duas notícias recentes obrigam o leitor a lembrar.
O ALERTA QUE VEIO DE DENTRO
Em setembro de 2026, o pesquisador Jacob Coxon anunciou em uma sequência de publicações no X que havia deixado a Anthropic, uma das maiores empresas de inteligência artificial do mundo. Segundo a AP, a BBC e o Guardian, Coxon afirmou ter trabalhado nos últimos três anos na Anthropic e na OpenAI, e escreveu: “Nenhuma das duas empresas está agindo com responsabilidade. Elas estão correndo direto para a superinteligência que se aprimora sozinha e apostando com as nossas vidas.”
E acrescentou, segundo o Guardian e a CBC: “As pessoas que constroem a IA acreditam sinceramente que ela pode matar todos nós até o fim da década. Isto não é jogada de marketing.” Segundo a BBC, ele também descreveu o que vem pela frente: “Em breve serão sistemas sobre-humanos, capazes de invadir qualquer coisa, revolucionar qualquer área da noite para o dia e adquirir poder e recursos reais.”
Horas depois, segundo a CBC e a The Verge, Evan Hubinger, que lidera pesquisas de segurança na própria Anthropic, respondeu publicamente: “Nós realmente acreditamos, com sinceridade, que a IA pode matar todos os humanos.” Ele estimou pessoalmente uma chance “maior que 10%” de isso acontecer “na próxima década”, e admitiu, segundo a BBC, que a empresa “ainda não tem um plano” para alinhar uma superinteligência aos valores humanos.
O alerta é grave. Mas é preciso lê-lo com atenção, porque a palavra mais importante dessa história não é “máquina”. É “corrida”.
A ESPIONAGEM QUE NINGUÉM VÊ
Enquanto o mundo discutia o fim da humanidade, a Alemanha descobria algo mais concreto. Segundo o Escritório Federal de Segurança da Informação (BSI), vários membros do Bundestag, o parlamento alemão, e outras figuras públicas receberam desde 29 de outubro de 2026 um aviso da Apple em seus aparelhos: a empresa havia detectado um ataque com o chamado “spyware mercenário”, software espião comercial e sofisticado que, segundo o BSI, “foi usado no passado com frequência a serviço de atores estatais contra pessoas escolhidas a dedo”.
Em carta de 30 de outubro, o BSI alertou os parlamentares e pediu que os atingidos o procurassem diretamente. A agência explica que esse tipo de ataque costuma funcionar sem nenhuma ação da vítima, por meio de uma mensagem preparada que nem precisa ser aberta, o chamado “zero-click”. Uma vez instalado, segundo o BSI, o invasor pode acessar mensagens, inclusive de aplicativos criptografados, ligações, contatos, agenda, localização, e ligar a câmera e o microfone.
O ministro do Digital, Karsten Wildberger, confirmou à ZDF o ataque a aparelhos de membros do governo e deputados: “É algo que naturalmente recebemos com preocupação. E é algo que, infelizmente, já aconteceu antes.” Segundo a ZDF, quem foi atingido e quem está por trás ainda não é conhecido. A Apple confirmou à revista heise que os avisos de 29 de outubro foram enviados a usuários em 99 países.

Há uma cautela necessária. Segundo o BSI e o TechCrunch, a Apple não identifica governos nem informa se o aparelho foi de fato invadido. O aviso indica um ataque, não necessariamente uma infecção. Até agora, nenhuma autoria foi oficialmente atribuída e nenhum programa específico foi nomeado.
UM PADRÃO, NÃO UM ACIDENTE
Não é a primeira vez. Em 2021, o Projeto Pegasus, uma investigação de jornalistas coordenada pela Forbidden Stories com apoio técnico da Anistia Internacional, revelou indícios do uso do spyware Pegasus, da empresa israelense NSO Group, contra jornalistas, ativistas e políticos. O Citizen Lab, da Universidade de Toronto, documentou ao longo dos anos diversos ataques “zero-click” contra iPhones. A NSO sempre afirmou vender apenas a governos, para combater crime e terrorismo. Ainda em 2021, a Apple processou a empresa nos Estados Unidos.
E os alemães conhecem bem essa ferida. Em 2013, segundo a revista Der Spiegel, documentos vazados indicaram que o celular da então chanceler Angela Merkel havia sido monitorado. Merkel respondeu com uma frase que entrou para a história: “Espionar entre amigos, isso não se faz.”
A pergunta que circula nas redes, “quem estaria espionando as autoridades alemãs e a serviço de quem?”, continua sem resposta oficial. E talvez seja justamente por isso que ela é a pergunta certa.
A MÁQUINA NÃO TEM EGO
Repare no que as duas notícias têm em comum. Em nenhuma delas a máquina decide nada sozinha. O spyware não escolhe deputados; alguém escolhe por ele. O código não sente inveja, não deseja poder, não odeia um rival. Quem deseja é a mão invisível que paga, encomenda e aperta o botão.
Até o alerta de Coxon, lido com cuidado, aponta para isso. Ele não acusa os algoritmos de ambição. Ele descreve empresas “presas em uma corrida” para chegar primeiro, avançando, segundo a The Verge, “apesar do risco”. A corrida é humana. A pressa é humana. A vaidade de ser o primeiro é humana.
O filósofo Martin Heidegger escreveu, em “A Questão da Técnica”, de 1954, que “a essência da técnica não é, de modo algum, algo técnico”. O perigo não mora no metal, mas no modo como o homem passa a enxergar o mundo: tudo vira recurso, tudo vira alvo, inclusive outros seres humanos.
A LINHA QUE ATRAVESSA O CORAÇÃO
Santo Agostinho, em “A Cidade de Deus”, explicou que duas cidades nascem de dois amores: a terrena, do amor de si até o desprezo de Deus; a celeste, do amor de Deus até o desprezo de si. O ego, quando se coloca no centro do universo, sempre produz a cidade terrena, com suas muralhas, seus espiões e suas guerras.
Hannah Arendt, ao acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, cunhou a expressão “banalidade do mal”. Ela percebeu que o organizador da logística do Holocausto não era um monstro de chifres, mas um burocrata que cumpria ordens e não pensava. As maiores chacinas do século XX não foram feitas por máquinas. Foram feitas por homens que transformaram máquinas, trens e papéis em instrumentos de morte.
Aleksandr Soljenítsin, sobrevivente do Gulag, escreveu em “Arquipélago Gulag” que “a linha que separa o bem e o mal não passa entre Estados, nem entre classes, nem entre partidos políticos, mas atravessa o coração de cada ser humano”. Nenhuma inteligência artificial tem coração. Por isso nenhuma pode carregar sozinha a culpa. A culpa precisa de alguém.
E George Orwell, em “1984”, imaginou um poder que vigiava cada casa por meio de telas: “O Grande Irmão está de olho em você.” Orwell precisou de um Estado inteiro de funcionários para realizar esse pesadelo. Hoje, segundo o BSI, basta uma mensagem que ninguém abre.
A LIÇÃO
A lição é simples e exigente. Temer a máquina é confortável, porque nos isenta. Temer o homem que a controla é desconfortável, porque nos obriga a olhar para quem tem poder, para quem paga, para quem decide, e também para dentro de nós mesmos.
A inteligência artificial pode se tornar a ferramenta mais poderosa da história. Uma ferramenta assim, nas mãos de quem busca a verdade e protege a liberdade, pode curar doenças e defender nações. Nas mãos de quem é movido pelo ego, pela sede de domínio e pelo prazer de destruir, pode se tornar a arma perfeita, silenciosa, sem rosto e sem assinatura.
O problema da IA só começou. Mas ele nunca foi, no fundo, um problema de máquinas. É o mais antigo problema do mundo: o coração humano. E a pergunta que a Alemanha faz hoje, “a serviço de quem?”, é a pergunta que toda sociedade livre deve fazer sempre que um novo poder surge sem rosto.
Editorial / VOZ Insight Magazine
