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Home » A maldade invisível: a nova guerra fria, a fome como arma e o kit de 72 horas
Mundo

A maldade invisível: a nova guerra fria, a fome como arma e o kit de 72 horas

EditorialBy Editorialnovembro 2, 202610 Mins Read
Corredor de congelados de supermercado
Corredor de congelados de um supermercado em Frankfurt, Alemanha (imagem ilustrativa). Foto: Alexis Jazz / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)
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Existe uma maldade tão antiga quanto a própria humanidade: a decisão de ferir outro ser humano sem jamais encarar o seu rosto. Por décadas, a falta de bombas foi o símbolo silencioso da paz. Hoje, a guerra já não precisa delas: a segurança de uma cidade inteira depende de sistemas que quase ninguém vê, e que alguém, em algum lugar, decidiu usar como arma. Na madrugada de 1º para 2 de novembro de 2026, essa maldade voltou a bater à porta da Europa.

O que aconteceu

Segundo a BBC, a Euronews, a Associated Press e o The Guardian, supermercados em ao menos sete países europeus (Bélgica, Suécia, Luxemburgo, Irlanda, Estônia, Finlândia e Países Baixos) amanheceram com geladeiras e freezers fora de controle. Em algumas lojas, as temperaturas chegaram a 50 °C. Na Bélgica, de acordo com o jornal Le Soir citado pela Euronews, foram atingidas cerca de 40 lojas Delhaize, 15 Carrefour, 15 Intermarché e cinco Spar, além de uma loja IKEA em Mons. O Centro de Cibersegurança belga confirmou estar ciente do incidente, e a Procuradoria Federal abriu investigação. Na Suécia, a rede Coop informou à BBC que sete de suas cerca de 800 lojas foram afetadas, e a ICA confirmou “um número limitado” de unidades. Uma loja ICA em Sjöbo escreveu nas redes sociais que seus freezers foram “hackeados durante a noite” e ajustados para 50 graus. Na Irlanda, a Musgrave, dona da SuperValu, confirmou à RTÉ um “incidente cibernético” em 13 lojas, já resolvido no mesmo dia.

O método, segundo a fabricante belga Sabcobel em declaração à agência Belga, foi colocar os evaporadores em modo de degelo. Não é uma pane. É uma instrução.

E não foi a primeira vez. Em outubro, segundo a Associated Press, cerca de 700 dos 10 mil supermercados da França tiveram seus sistemas de refrigeração invadidos, com perdas estimadas em dezenas de milhões de euros e até incêndios, conforme a Promotoria de Paris. O ministro da Economia, Roland Lescure, disse ao Parlamento que não havia risco ao abastecimento, mas admitiu que o ataque “toca o coração da nossa segurança alimentar”. A agência francesa de cibersegurança, a ANSSI, por meio do CERT-FR, publicou em 12 de outubro um alerta sobre controladores remotos de refrigeração expostos à internet e advertiu, com todas as letras, que “campanhas de ataque provavelmente continuam em curso”.

Do outro lado do Atlântico, a Reuters revelou em 29 de outubro que o Pentágono trata como suspeita de ataque cibernético as falhas de refrigeração ocorridas em agosto em pelo menos seis comissariados, os mercados das bases militares americanas. Investigadores do Exército, segundo a mesma reportagem, mantêm contato com as autoridades francesas.

Quem está por trás? Até agora, ninguém reivindicou os ataques, e as autoridades não apontaram autores. A pergunta, portanto, permanece aberta, e é exatamente essa incerteza que deveria nos inquietar.

O ataque que não se vê

O mais assustador na guerra moderna é que ela pode acontecer sem que ninguém perceba. A Flórida conhece essa lição. Em fevereiro de 2023, o Tallahassee Memorial HealthCare, um dos maiores sistemas hospitalares do norte do estado, foi atingido por um incidente de segurança que o obrigou a desviar pacientes de emergência, cancelar cirurgias e trabalhar em papel por cerca de duas semanas, segundo a AP e o próprio hospital. A investigação revelou depois que um invasor havia circulado pela rede entre 26 de janeiro e 2 de fevereiro, dias antes de ser detectado, e levado dados de cerca de 20 mil pacientes. O invasor esteve lá dentro antes que alguém notasse. Quando um hospital para, quem paga é o doente na ambulância desviada.

Também na Flórida, em 2021, o caso da estação de tratamento de água de Oldsmar correu o mundo como suposta tentativa de envenenar a água com soda cáustica. A honestidade exige registrar o desfecho: em 2023, o FBI declarou que não conseguiu confirmar uma invasão cibernética, e o ex-administrador da cidade atribuiu o episódio a erro de um funcionário. Ainda assim, o caso mostrou ao país o quanto a água que bebemos depende de poucos computadores.

E há perguntas que uma sociedade madura não pode deixar de fazer. O relatório Cancer Statistics 2025, da American Cancer Society, mostra que os adultos com menos de 50 anos foram a única faixa etária com aumento na incidência geral de câncer entre 1995 e 2021, e os próprios pesquisadores dizem que parte das causas ainda precisa ser esclarecida. Não há qualquer evidência de que ataques cibernéticos tenham relação com isso, e seria irresponsável afirmar o contrário. Mas a pergunta de fundo é legítima: o que estamos comendo, bebendo e respirando, quem vigia os sistemas que controlam a nossa água e os nossos alimentos, e quanto tempo levaríamos para perceber se algo desse errado? A ameaça invisível não precisa ser provada para exigir vigilância.

A lição de estratégia: atacar a confiança, não o alimento

Há uma aula de geopolítica escondida em cada freezer desligado. A nova guerra fria não declara guerra. Ela semeia. Semeia medo, desconfiança, raiva. Ela sabe que uma prateleira vazia pode virar uma fila, uma fila pode virar uma briga, e uma briga pode virar um tumulto. A fome, o saque e a violência nas ruas não precisam ser provocados por exércitos: basta empurrar uma sociedade nervosa até a beira do precipício e deixar que ela mesma caia. A guerra do século XXI raramente começa com tanques. Ela começa com dúvidas. Analistas ouvidos pela CNN observaram que, como não houve pedido de resgate, o objetivo parece ter sido “inquietar o público”. O alvo não é a carne congelada. É a certeza de que, amanhã, haverá comida na prateleira.

Os antigos já sabiam disso. Os cercos medievais não derrubavam muralhas; esperavam a fome. A diferença é que, hoje, a muralha é feita de software, e o cerco pode ser feito de longe, sem um único soldado. Uma sociedade que vive em fluxo contínuo, com estoques calculados para poucos dias e entregas just in time, é eficiente na abundância e frágil no choque. Cada geladeira conectada à internet é, ao mesmo tempo, uma conveniência e uma porta.

E a maldade humana não se limita aos computadores. A pandemia ensinou ao mundo o que um único vírus pode fazer a uma civilização inteira. Sobre a origem da Covid-19, o FBI e o Departamento de Energia dos Estados Unidos avaliaram como provável um incidente de laboratório, e em janeiro de 2025 a CIA passou a considerar a origem laboratorial mais provável, com “baixa confiança”, segundo a Reuters e a NBC. Em abril de 2025, a Casa Branca publicou uma página oficial defendendo essa tese. Não se trata de acusar ninguém, mas de reconhecer o que os próprios governos admitem: a biologia, nas mãos erradas ou num descuido, tornou-se também uma fronteira de risco. Fome, vírus, apagões, desinformação: são as armas de uma guerra que não precisa de bandeira.

É por isso que a palavra “provisão” voltou ao vocabulário oficial. Não por alarmismo, mas por aritmética. Nas primeiras horas de uma crise, seja um apagão, uma enchente ou uma sabotagem, os serviços públicos precisam se concentrar em quem corre perigo imediato. Quem tem o básico em casa deixa de ser um problema e passa a ser parte da solução.

Quem já orientou seus cidadãos

Itens de um kit de emergência recomendados pelo folheto sueco Om krisen kommer
Itens recomendados pelo folheto sueco “Om krisen kommer”. Foto: W.carter / Wikimedia Commons (CC0)

A recomendação não nasceu agora. Ela foi construída, país por país, nos últimos dois anos:

União Europeia: em 26 de março de 2025, a Comissão Europeia apresentou a Estratégia da União de Preparação, que recomenda que os cidadãos consigam suprir suas necessidades básicas por pelo menos 72 horas.

Suécia: em novembro de 2024, o governo distribuiu a todos os lares o folheto “Om krisen eller kriget kommer” (Se a crise ou a guerra vier), com orientação de estoque para ao menos uma semana.

Finlândia e Noruega: no mesmo período, segundo a BBC, lançaram novos guias. A Finlândia, com foco em 72 horas; a Noruega, com estoque para uma semana, incluindo comprimidos de iodo.

Dinamarca: a agência nacional de emergência orienta autossuficiência por três dias, com água, comida, remédios e primeiros socorros.

Alemanha: segundo a Newsweek, o guia oficial recomenda estoques para até dez dias.

Polônia: o Guia de Segurança oficial pede suprimentos para ao menos três dias e uma mochila de evacuação.

Países Baixos: a campanha “Denk vooruit” prepara as famílias para 72 horas sem energia, água ou internet.

República Tcheca: o portal oficial 72h.gov.cz publicou em 2025 o guia “72 horas”.

Bélgica: em 1º de outubro de 2026, o Centro Nacional de Crise publicou o guia “Preparados Juntos”, com kit para 72 horas, conforme o le360.

Reino Unido: em 22 de outubro de 2026, o governo lançou a campanha “Be Ready”, pedindo que as famílias consigam se manter por até três dias sem eletricidade, água, telefone ou internet.

França: em 27 de outubro de 2026, as prefeituras da Normandia e do Sena Marítimo pediram aos moradores que montem um kit de 72 horas. É um apelo regional, não uma nova diretriz nacional.

Fora da Europa, Canadá, Japão e Estados Unidos (pelo Ready.gov) mantêm orientações semelhantes há anos.

Razões, consequências e resultado

As razões são claras: infraestrutura crítica conectada e vulnerável, tensões geopolíticas crescentes e a evidência concreta de que alguém já testou, em vários países, a capacidade de estragar comida à distância. A agência francesa disse que os ataques provavelmente continuam. A segunda onda, em novembro, confirmou o alerta. Não é exagero dizer que o fenômeno já começou e que, enquanto equipamentos antigos permanecerem expostos à internet, tende a se repetir.

As consequências são econômicas, mas sobretudo psicológicas. Prejuízos de milhões, prateleiras vazias por algumas horas, e uma pergunta que se instala na cabeça do cidadão: e se durar mais?

O resultado depende de nós. Quem quer o caos aposta no medo e na pressa. Pânico esvazia supermercados; preparo os protege. Quem compra aos poucos, com antecedência, não disputa o último pacote de arroz. A despensa organizada é, no fundo, um gesto de responsabilidade cívica. É a fronteira mais próxima que cada família pode defender.

O que ter em casa em caso de ataque: o kit de 72 horas

Kit de emergência de 72 horas com lista de itens
Foto: David Pursehouse / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Com base nos guias da União Europeia, do Ready.gov (FEMA), da Suécia e da Bélgica:

  • Água potável: cerca de 3 a 4 litros por pessoa por dia, para beber e higiene.
  • Alimentos não perecíveis que não precisem de cozimento nem de geladeira.
  • Abridor de latas manual.
  • Remédios de uso contínuo para ao menos uma semana e receitas.
  • Kit de primeiros socorros.
  • Rádio a pilha ou a manivela, para ouvir avisos oficiais.
  • Lanterna e pilhas extras.
  • Carregador portátil (power bank) carregado.
  • Dinheiro em espécie, em notas pequenas.
  • Cópias de documentos importantes em saco plástico.
  • Itens de higiene, lenços umedecidos e sacos de lixo.
  • Máscaras (tipo N95/PFF2).
  • Pastilhas ou comprimidos para purificar água.
  • Apito, para pedir socorro.
  • Cobertores ou mantas térmicas e roupas quentes.
  • Extintor de incêndio ou manta antichamas.
  • Fósforos ou isqueiro e, se possível, um fogareiro seguro.
  • Comprimidos de iodo somente se e quando a autoridade de saúde orientar.
  • O necessário para crianças, idosos e animais de estimação.
  • Um plano familiar: ponto de encontro e contatos anotados em papel.

A regra de ouro, repetida pelo governo belga: monte aos poucos, use e reponha antes do vencimento. Não é preciso gastar muito. É preciso começar.

A maldade humana não mudou desde os cercos medievais. Mudaram as armas, que agora são silenciosas, distantes e invisíveis. A resposta, porém, continua a mesma: famílias preparadas, vizinhos solidários e cidadãos que não se deixam governar pelo medo.

A civilização sempre se mediu pela distância entre o homem e a fome. Por um século, essa distância pareceu infinita. As geladeiras da Europa nos lembraram que ela pode ser de apenas uma noite.

Editorial / VOZ Insight Magazine

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