A Fórmula 1 chega a São Paulo com o título decidido e uma pergunta no ar: o que ainda vale a pena disputar quando a taça já tem dono? Em Interlagos, a resposta sempre foi a mesma. Vale tudo.
O fim de semana do Grande Prêmio de São Paulo
O Grande Prêmio de São Paulo de 2026, 20ª etapa de um calendário de 23 corridas, será disputado no Autódromo José Carlos Pace, em Interlagos, de 6 a 8 de novembro. Até esta terça-feira, 3 de novembro, a corrida ainda não aconteceu. Pela programação oficial da Fórmula 1, no horário de Brasília:
Sexta, 6 de novembro: Treino Livre 1 às 12h30 e Treino Livre 2 às 16h.
Sábado, 7 de novembro: Treino Livre 3 às 11h30 e classificação às 15h.
Domingo, 8 de novembro: corrida às 14h, em 71 voltas de 4,309 km, num total de 305,879 km.
O recorde de volta em corrida ainda pertence a Valtteri Bottas, com 1min10s540, marcado em 2018. Bottas, curiosamente, volta a Interlagos este ano defendendo as cores de uma equipe estreante, a Cadillac.


Um ano de carros novos e de regras novas
A temporada de 2026 foi a maior revolução técnica da Fórmula 1 em mais de uma década. Segundo a própria Fórmula 1, os motores continuam V6 turbo híbridos de 1,6 litro, mas a divisão de potência passou a ser de cerca de 50% a combustão e 50% elétrica. O MGU-H, sistema que recuperava energia do calor, foi eliminado, e o MGU-K saltou de 120 kW para 350 kW. Pela primeira vez, todos os carros correm com combustíveis sustentáveis avançados, produzidos a partir de captura de carbono, resíduos urbanos e biomassa não alimentar.
Os carros ficaram menores e mais leves: entre-eixos 200 mm mais curto, 100 mm mais estreitos e peso mínimo 30 kg menor, de 770 kg. O DRS saiu de cena e deu lugar à aerodinâmica ativa, com asas dianteira e traseira que alternam entre um modo de curva, de alta pressão aerodinâmica, e um modo de reta, de baixo arrasto. Para ultrapassar, os pilotos usam agora a gestão de energia, com recursos como o modo de ultrapassagem e o “Boost”.
O grid também mudou. A Audi assumiu a antiga Sauber, a Cadillac estreou como 11ª equipe, com Valtteri Bottas e Sergio Pérez, e novos fornecedores de motor, como a parceria Red Bull Powertrains e Ford, entraram na disputa.
Antonelli, o campeão mais jovem da história

O grande personagem do ano é Andrea Kimi Antonelli. No dia 1º de novembro, com o terceiro lugar no Grande Prêmio da Cidade do México, o italiano da Mercedes garantiu o título com quatro corridas de antecedência. Com 20 anos e 68 dias, segundo o GPblog, ele superou o recorde de Sebastian Vettel e se tornou o campeão mais jovem da história da categoria, devolvendo à Itália um título de pilotos que não vinha desde Alberto Ascari, em 1953. É apenas a sua segunda temporada na Fórmula 1.
Os números explicam o domínio: nove vitórias em 19 corridas e 380 pontos, 119 a mais que o segundo colocado. A Mercedes, com 12 vitórias somando as de Antonelli e as três de George Russell, lidera o Mundial de Construtores com 630 pontos e caminha para fechar a dobradinha de títulos.
Quem venceu em 2026
Pelo quadro oficial da FIA, os vencedores das 19 corridas disputadas foram:
Austrália: George Russell (Mercedes)
China: Kimi Antonelli (Mercedes)
Japão: Kimi Antonelli (Mercedes)
Miami: Kimi Antonelli (Mercedes)
Canadá: Kimi Antonelli (Mercedes)
Mônaco: Kimi Antonelli (Mercedes)
Barcelona: Lewis Hamilton (Ferrari)
Áustria: George Russell (Mercedes)
Grã-Bretanha: Charles Leclerc (Ferrari)
Bélgica: Kimi Antonelli (Mercedes)
Hungria: Lando Norris (McLaren)
Holanda: Lando Norris (McLaren)
Itália: Kimi Antonelli (Mercedes)
Madri: Kimi Antonelli (Mercedes)
Azerbaijão: George Russell (Mercedes)
Bahrein: Max Verstappen (Red Bull)
Singapura: Max Verstappen (Red Bull)
Estados Unidos (Austin): Kimi Antonelli (Mercedes)
Cidade do México: Max Verstappen (Red Bull)
A vitória de Lewis Hamilton com a Ferrari em Barcelona, foi um dos momentos mais emocionantes do ano. E Max Verstappen, que começou a temporada sofrendo com o novo pacote da Red Bull, venceu três das últimas quatro corridas.


A classificação antes de Interlagos
Pilotos, top 10 (fonte: Fórmula 1). Gabriel Bortoleto é o 14º, com 14 pontos.
| Pos. | Piloto | Equipe | Pontos |
|---|---|---|---|
| 1 | Kimi Antonelli | Mercedes | 380 |
| 2 | Max Verstappen | Red Bull | 261 |
| 3 | Lewis Hamilton | Ferrari | 259 |
| 4 | George Russell | Mercedes | 250 |
| 5 | Charles Leclerc | Ferrari | 245 |
| 6 | Lando Norris | McLaren | 221 |
| 7 | Oscar Piastri | McLaren | 144 |
| 8 | Isack Hadjar | Red Bull | 107 |
| 9 | Liam Lawson | Racing Bulls | 83 |
| 10 | Pierre Gasly | Alpine | 42 |
Construtores:
| Pos. | Equipe | Pontos |
|---|---|---|
| 1 | Mercedes | 630 |
| 2 | Ferrari | 504 |
| 3 | Red Bull | 382 |
| 4 | McLaren | 365 |
| 5 | Racing Bulls | 108 |
| 6 | Alpine | 69 |
| 7 | Haas | 31 |
| 8 | Audi | 27 |
| 9 | Williams | 12 |
| 10 | Aston Martin | 7 |
| 11 | Cadillac | 0 |
O que ainda está em jogo
O título de pilotos acabou, mas a briga pelo vice está acesa. Verstappen tem 261 pontos, apenas dois a mais que Hamilton, e Russell e Leclerc estão a 11 e 16 pontos do holandês. Entre os construtores, a Mercedes precisa de pouco para confirmar o título, enquanto a Red Bull tenta segurar a terceira posição contra a McLaren, que está 17 pontos atrás. Mais abaixo, a Audi está a quatro pontos da Haas na luta pelo sétimo lugar. Depois de Interlagos ainda restam Las Vegas, Catar e Abu Dhabi.


Bortoleto em casa

Para o torcedor brasileiro, o nome do fim de semana é Gabriel Bortoleto. Em sua segunda temporada, agora na nova equipe Audi, o paulista de Osasco soma 14 pontos e é o 14º do campeonato, um à frente do companheiro Nico Hülkenberg. No México, depois de um fim de semana com problemas no carro e quase nenhum treino, ele cruzou a linha em 11º e herdou o oitavo lugar após punições a Oscar Piastri, Pierre Gasly e Franco Colapinto, igualando o melhor resultado da equipe no ano.
“Agora vamos para o Brasil, e eu mal posso esperar para correr diante da minha torcida”, disse Bortoleto, segundo a Audi. Ao site da Fórmula 1, ele acrescentou que Interlagos deve se adequar ao carro e que, com um fim de semana limpo, a equipe pode brigar por bons pontos.
Não se espera um pódio. Espera-se algo talvez mais raro: um jovem brasileiro, num projeto que ainda está nascendo, tentando arrancar cada décimo de um carro em construção, diante de uma arquibancada que sabe reconhecer coragem.
O que Interlagos ensina

Interlagos é um circuito que corre ao contrário, no sentido anti-horário, e talvez por isso ensine coisas que outras pistas não ensinam. Ali a chuva muda de ideia em minutos, o “S do Senna” pune a pressa e a subida dos boxes exige paciência antes da reta. É um traçado que lembra que a velocidade, sozinha, não ganha corridas. Ganha quem sabe quando acelerar e quando esperar.
A temporada de 2026 reforçou essa lição. Num ano em que o carro precisa colher energia para depois gastá-la, o piloto que tudo quer usar de uma vez fica sem nada no fim da reta. Há uma sabedoria antiga nisso: a força que não se poupa não chega ao fim. Antonelli venceu porque, aos 20 anos, aprendeu cedo a administrar o que tinha. Verstappen voltou a vencer porque não desistiu quando o carro não respondia. Hamilton encontrou a vitória na Ferrari depois de anos ouvindo que seu tempo tinha passado.
E há a equipe. Nenhum campeão atravessa uma temporada sozinho. Por trás de cada pole há centenas de engenheiros, mecânicos e estrategistas cujos nomes o público não conhece. O troféu fica com um, mas a vitória pertence a muitos.
Em São Paulo, é impossível falar de perseverança sem lembrar Ayrton Senna. Em 1991, ele venceu pela primeira vez em casa com o câmbio travado, preso à sexta marcha nas últimas voltas, e saiu do carro sem forças para erguer o troféu. A lição daquele dia continua de pé: o limite do carro não é o limite do homem. O legado de Senna não está só nas vitórias. Está na ideia de que dar o melhor de si é um dever, mesmo quando ninguém está olhando, e principalmente quando todos estão.
No domingo, quando as luzes se apagarem às 14h, o campeão já terá nome. Mas cada piloto no grid terá a chance de mostrar quem é. Fica a pergunta para cada leitor: quando a vitória já não é possível, ainda corremos com a mesma entrega? Porque é aí, longe do troféu, que se revela o caráter.
Editorial / VOZ Insight Magazine
