Por Marcos L. Susskind
O mundo assiste, praticamente calado, a um verdadeiro genocídio, cometido com a mesma barbárie do que foi o holocausto nazista contra os judeus. As vítimas, desta vez, são os Drusos na Síria.
Mas quem são os Drusos? Onde vivem, no que acreditam e por que estão sendo caçados de forma tão violenta?
Os Drusos são árabes que praticam uma religião monoteísta, cujo conhecimento é exclusivo dos próprios Drusos e mantido em segredo para os demais. O pouco que se sabe é que sua fé se originou do islamismo xiita, do qual se separou. Eles acreditam em um Deus único, na reencarnação e na eternidade da alma. A religião foi fundada no final do século X, e novos adeptos foram aceitos até o ano de 1043. Desde então, não há conversão à fé drusa — só são reconhecidos os casamentos entre Drusos. Se um fiel, homem ou mulher, se casar com alguém fora da comunidade, é automaticamente excluído da religião, assim como seus descendentes.
São um povo pequeno em número, estimado entre 800 mil e 2 milhões de pessoas, vivendo majoritariamente em áreas montanhosas do Líbano, da Síria e de Israel, com pequenas comunidades em outros países.

Os Drusos se identificam como árabes, e sua língua e cultura também são árabes. Como mencionado, os casamentos inter-religiosos são raríssimos e fortemente desencorajados.
A perseguição aos Drusos na Síria não é recente, mas a violência extrema das últimas semanas superou tudo o que já havia acontecido. Motivações religiosas e políticas intensificaram a inimizade entre grupos beduínos e sunitas sírios contra os Drusos.
A origem da atual onda de ódio remonta à revolução que derrubou a ditadura da família Assad, em dezembro passado. Há poucos dias, foi divulgada uma gravação insultando o profeta Maomé, atribuída a um líder druso. Mesmo com a negativa da autoria, os ânimos beduínos se exaltaram, e aldeias drusas ao sul de Damasco foram atacadas. Tropas regulares do exército sírio, aparentemente, se uniram aos beduínos e cometeram massacres brutais em vilarejos drusos.
Um dos hospitais de El Sweida foi invadido, e todos os pacientes, médicos, enfermeiros e funcionários administrativos foram mortos — massacrados de forma bárbara.
A incitação por parte de membros do atual governo aumentou ainda mais a sede por sangue. Um assessor do presidente Al-Julani declarou à mídia árabe voltada aos Drusos:
“Saiam de Jaramana, saiam de todas as áreas mistas. A luta de vocês não é só contra os sírios, é contra todo o mundo muçulmano. Vamos caçá-los onde estiverem. Faremos com vocês o mesmo que fazemos com os judeus. Vocês não são diferentes dos israelenses. Onde houver um druso, cortaremos sua cabeça — seja homem, mulher ou criança.”
Israel abriga a terceira maior comunidade drusa do mundo. Praticamente todos os homens drusos israelenses servem ao exército, sendo árabes extremamente leais ao país. Judeus e Drusos em Israel mantêm entre si um verdadeiro pacto de sangue.
Diante da tragédia na Síria e do profundo senso de irmandade entre os Drusos, mais de dois mil veteranos drusos do exército israelense assinaram uma carta declarando intenção de se juntar à luta em defesa de Sweida, a principal cidade drusa na Síria.
Israel foi o único país a se prontificar a defender os Drusos sírios e a impedir seu genocídio. Tropas israelenses atacaram tanques sírios que se dirigiam a El Sweida, e o governo israelense enviou um último aviso diplomático a Damasco: haverá uma intervenção militar direta caso os ataques continuem.
Embora tenha sido anunciado um cessar-fogo, os confrontos persistem em Sweida. Combatentes beduínos, aliados ao regime, seguem atacando milícias e civis drusos. A violência já resultou em pelo menos 940 mortos.
Infelizmente, outros grupos sunitas, não beduínos, também aderiram aos ataques, apesar do cessar-fogo. Há ameaças de massacres nas casas dos Drusos.
As imagens dos ataques são acompanhadas de humilhações públicas, especialmente contra clérigos drusos idosos, que tiveram suas barbas e bigodes raspados — um ato de violência simbólica e religiosa, já que esses elementos têm profundo significado na fé drusa.
O líder espiritual druso, Sheikh Hikmat al-Hajri, denunciou o governo de al-Shara:
“Eles agem com a crença de que minorias, seitas e religiões diferentes da deles são todas infiéis. Nosso povo e nossos mortos nunca foram ‘gangues’ e nunca serão. Aguardamos uma constituição que traga justiça e base para o progresso. Já não confiamos em um regime que se autodenomina governo. Todos temos a mesma opinião sobre esse governo e suas facções terroristas.
Um governo não mata seu povo por meio de grupos a ele afiliados e, depois do massacre, alega que foram ‘elementos desonestos’.
Não confiamos mais na presença de representantes desse governo entre nós — são máquinas de matar e sequestrar com mentalidade sectária.
Pedimos à comunidade internacional que não continue a ignorar nossa situação e apelamos por assistência urgente, na esperança de uma resposta imediata que ponha fim ao derramamento de sangue.”
Neste 21 de julho, é esperado que entre em vigor um cessar-fogo definitivo, seguido por uma troca de prisioneiros entre os diversos grupos envolvidos nesta trágica luta fratricida na Síria.
