Há guerras que começam com tanques na fronteira. E há guerras que começam com um e-mail.
Na manhã de segunda-feira, 2 de novembro, 271 escolas italianas receberam a mesma mensagem, segundo a Rai e o jornal la Repubblica. O remetente se apresentava como o “Corpo das Guardas da Revolução Islâmica” e dizia ter deixado na escola um saco plástico com explosivos, detonador remoto e fragmentos metálicos. Dava uma hora de prazo. E prometia que os sobreviventes seriam atacados com facas.
Em Roma, oito escolas foram atingidas. No instituto Giovanni Cagliero, no bairro Tuscolano, a diretora Anna Fucile mandou evacuar cinco prédios. Segundo o la Repubblica, cerca de duas mil crianças, incluindo os menores da educação infantil e alunos com deficiência, foram levadas sob chuva até o parque Villa Lais. “Por um momento pensei que pudesse ser uma brincadeira de péssimo gosto, mas eu nunca poderia fingir que nada estava acontecendo”, contou ela. Às 11 horas, todos estavam em segurança. Os esquadrões antibombas não encontraram explosivos.
A mesma mensagem, segundo os jornais italianos, ameaçava explodir em pleno voo o avião da Ryanair FR4438, que seguia da Letônia para Roma. O voo pousou normalmente.
No dia seguinte, terça-feira, 3 de novembro, a ameaça subiu aos céus. Segundo a agência ANSA, um e-mail anônimo enviado à administradora dos aeroportos de Roma anunciava bombas em dois voos da Ryanair vindos de Lisboa e de Dublin. A Força Aérea italiana informou que dois caças Eurofighter do 4º Esquadrão decolaram da base de Grosseto para interceptar e escoltar o avião vindo de Dublin até o pouso em Fiumicino. Aviões, passageiros e bagagens foram revistados. Nada foi encontrado.

Não foi só na Itália. Segundo a BBC e a emissora irlandesa RTÉ, ao menos sete aviões foram inspecionados em toda a Europa. Na Polônia, um voo da LOT vindo de Londres fez um pouso não programado em Varsóvia-Modlin, e um voo da SAS vindo de Copenhague foi verificado em Varsóvia-Chopin. Na Espanha, um avião da Ryanair vindo de Manchester, com 121 pessoas a bordo, passou por inspeção em Múrcia, e o aeroporto ficou fechado por cerca de duas horas. Na Bulgária, segundo o Ministério dos Transportes, dois aviões que pousaram em Sófia, um de Dublin e outro de Bérgamo, foram alvo de ameaças. Na Hungria, segundo o ministro da Defesa, um caça Gripen escoltou até Budapeste um avião da Wizz Air desviado por ameaça de bomba.
Todos os alertas, até agora, se revelaram falsos. O governo britânico os chamou de “ameaças falsas e maliciosas”. A ANSA registra que, segundo fontes da investigação, ainda não foram comprovadas ligações entre os casos. E a autoria iraniana, alegada na assinatura dos e-mails, também não foi comprovada. A polícia italiana segue investigando.
Mas o especialista em segurança da aviação Paul Mason, ouvido pela BBC, disse que ameaças desse tipo “não acontecem com tanta frequência” e que o padrão sugere “um ato muito deliberado”, e não uma série de coincidências. Segundo a jornalista Karina Michelin, em 19 de outubro pelo menos 50 escolas italianas já haviam recebido ameaças semelhantes.
A pergunta, então, não é apenas quem enviou os e-mails. É o que eles pretendem.
O MEDO COMO ARMA
Uma bomba falsa não destrói prédios. Destrói outra coisa: a confiança. Ela obriga uma diretora a escolher, em segundos, entre o risco de exagerar e o risco de se omitir. Ela faz uma criança de cinco anos caminhar sob chuva sem entender por quê. Ela faz um piloto olhar pela janela e ver um caça militar ao lado da asa.
O filósofo romano Sêneca escreveu que “sofremos mais na imaginação do que na realidade”. Quem manda um e-mail desses conhece bem essa lição. Não precisa de explosivo. Precisa apenas que milhares de pessoas imaginem o explosivo. O terror, no sentido mais antigo da palavra, não é a violência em si. É o medo que ela projeta.
É isso que muitos analistas chamam de guerra híbrida: atacar uma sociedade não pelo seu exército, mas pelas suas rotinas. A escola, o aeroporto, o supermercado. Os lugares onde a vida comum acontece e onde ninguém deveria precisar pensar em guerra.
A LIÇÃO
Há uma lição nisso, e ela não é o pânico. A diretora Anna Fucile não sabia se a ameaça era real. Mesmo assim, agiu com calma, priorizou os mais frágeis e levou todos para um lugar seguro. Os pilotos pousaram. Os caças cumpriram sua missão. Os esquadrões antibombas fizeram o seu trabalho. A Europa, desta vez, mostrou que sabe reagir.
A resposta ao medo não é a negação, e também não é a histeria. É o preparo. Sociedades que treinam, que mantêm protocolos claros e que não se deixam paralisar são mais difíceis de intimidar. Quem tenta governar pelo medo aposta que vamos perder a serenidade. A melhor resposta é não perder.
E há uma segunda lição, para governos e cidadãos: a liberdade precisa de vigilância. Descobrir quem está por trás dessas mensagens, e responsabilizar os autores dentro da lei, não é um detalhe técnico. É a condição para que as crianças voltem às salas de aula sem medo e para que um voo comum continue sendo apenas um voo comum.
O medo é uma arma barata. A coragem serena é a defesa mais forte que conhecemos.
Editorial / VOZ Insight Magazine
