Toda guerra começa longe e termina dentro de uma casa. Começa em mapas, discursos e frentes de batalha, e termina numa mesa de jantar com uma cadeira vazia, num celular que não toca mais, numa mãe que olha a porta esperando quem talvez não volte.
Entre os jovens mortos nos campos da Ucrânia, muitos deles por ataques de drones, há brasileiros. Jovens que deixaram suas cidades e suas famílias atraídos pela promessa de dinheiro, muitas vezes em situação de desespero financeiro.
José Avellar foi um deles
Segundo reportagens publicadas pelo Diário do Pará e pelo portal O Informativo, José Avellar saiu do Brasil para ajudar a família, sobretudo o pai, que estava internado. O registro internacional Missing in Ukraine lista seu nome completo como José Everaldo de Jesus Lima Avellar e aponta sua morte em outubro de 2026, sem detalhar local ou causa.
Antes de morrer, Avellar deixou um alerta gravado no front, divulgado por um amigo, também brasileiro, que está na guerra: “Se estiver de cabeça quente querendo fugir de problemas, não venha, isso aqui não é aventura.”

Poucas frases resumem tão bem a distância entre a promessa e a realidade. Quem parte imagina um trabalho. Quem chega descobre uma trincheira.
Os números da dor
De acordo com dados do Itamaraty citados pelo programa Fantástico, da TV Globo, ao menos 38 brasileiros morreram na guerra da Ucrânia e outros 96 permanecem desaparecidos. Os brasileiros que aparecem nesses relatos atuam, em sua maioria, como voluntários estrangeiros junto às forças ucranianas.
Por que eles vão?
A resposta não é simples, mas passa por uma palavra: necessidade. Segundo as mesmas reportagens, voluntários estrangeiros podem receber cerca de R$ 6 mil por mês, dependendo do câmbio e da função. Para um jovem sem emprego, com um pai doente, o número soa como salvação.
É aqui que surge a pergunta que precisa ser feita: quem apresenta essas ofertas aos jovens brasileiros, e com que informações? Eles sabem, antes de embarcar, para onde vão de fato, que função exercerão e quanto receberão? Os relatos sugerem que muitos não sabem.
O vídeo acima, divulgado pela Record, conta a história de um jovem paranaense que, segundo a reportagem, se alistou acreditando que operaria drones e percebeu que estava sendo treinado para lutar no front. Ele conseguiu fugir e voltar. Muitos não conseguem.
A guerra dos drones
O conflito na Ucrânia se tornou o laboratório de uma nova forma de combate. Drones baratos, guiados à distância, caçam soldados um a um, em campos abertos ou entre árvores. Não há heroísmo possível diante de uma máquina que vê tudo do alto. O soldado se torna alvo antes mesmo de ver o inimigo.
Para um jovem recém-chegado, sem anos de treinamento e sem falar a língua, essa realidade é ainda mais cruel. A coragem não protege contra o zumbido que se aproxima.
As consequências
Cada morte deixa uma família sem amparo e, muitas vezes, sem o corpo para enterrar. Parentes relatam dificuldades para obter confirmação oficial e para trazer os restos mortais ao Brasil. O dinheiro prometido, quando chega, chega tarde. A dívida que motivou a viagem continua, agora acompanhada do luto.
Há também uma consequência silenciosa: a normalização. Quando a guerra vira “oportunidade de emprego” nas redes sociais, ela perde seu peso moral. Torna-se uma vaga, um contrato, uma aventura. E não é.
O resultado provável
Enquanto houver desespero econômico e ofertas circulando sem transparência, outros jovens continuarão partindo. A informação clara é a melhor proteção: saber o que é a guerra antes de entrar nela. As famílias, as igrejas, as escolas e a imprensa têm um papel nisso, o de contar a verdade antes que ela seja contada por um caixão.
Os filósofos antigos diziam que a guerra é o lugar onde os velhos decidem e os jovens morrem. Talvez seja hora de acrescentar: e onde os pobres pagam o preço mais alto.
A guerra não é aventura, e nenhuma promessa de dinheiro compensa uma vida perdida. Por trás de cada jovem soldado existe uma família à espera de alguém que talvez nunca volte para casa.
Que Deus proteja todos eles e console as famílias que ficaram.
Editorial / VOZ Insight Magazine
Fontes: Diário do Pará (22/10/2026); O Informativo; Portal F5; Missing in Ukraine; dados do Itamaraty citados pelo Fantástico (TV Globo); Record (Siga Record, Facebook).
