A direita precisa se unir — ou o Brasil segue nas mãos do Fórum de São Paulo
Há horas na vida de um povo em que a prudência deixa de ser virtude e vira covardia. Esta é uma delas. O Brasil entra na reta final de uma eleição que não decide apenas o inquilino do Palácio do Planalto. Decide se a nação ainda pretende ser dona de si — ou se aceita, por mais quatro anos, o papel de plataforma continental de um projeto que nasceu em 1990, sob o teto de São Paulo, com a bênção de Fidel Castro e a assinatura de Luiz Inácio Lula da Silva.
O Fórum de São Paulo nunca foi um clube de conversa. Foi — e permanece — a arquitetura política da esquerda latino-americana: um consórcio de partidos, guerrilhas recicladas, regimes e milícias ideológicas que aprenderam a falar a língua da democracia para ocupar o Estado e, de dentro dele, esvaziar a soberania. Cuba, Venezuela, Nicarágua, Bolívia. O roteiro é conhecido. O Brasil, pela dimensão, pela terra, pelo porto e pelo voto, sempre foi o prêmio maior.
Por isso a frase que o presidente repetiu na tribuna da ONU — “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” — soa menos como doutrina e mais como teatro. Quem transforma o território nacional em corredor diplomático do eixo Teerã–Pequim–Caracas, quem recusa chamar de terrorismo o que Washington já classificou como tal, quem cobre com retórica multilateral o que na prática é alinhamento, não está defendendo o quintal. Está alugando a casa.
O mapa que o Palácio não desenha
Geopolítica não é sentimento. É mapa, fluxo e intenção. E o mapa brasileiro, sob este governo, ficou inteligível demais.
No Oriente Médio, o regime dos aiatolás — cujo braço armado é o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, o IRGC — não precisa de embaixada para projetar poder. Precisa de porto, de documentação, de silêncio oficial e de uma diplomacia que trate Hezbollah como “partido” e Hamas como “resistência”. O Brasil ofereceu as três coisas. O vice-presidente sentou-se, em Teerã, na posse de um presidente iraniano, na mesma galeria em que circulavam emissários do Hamas e do Hezbollah. O Itamaraty condenou ataques ao programa nuclear iraniano com a linguagem de quem protege o algoz e sermoniza a vítima. Enquanto isso, redes ligadas ao Hezbollah seguem descritas por analistas de defesa das Américas como parte do tecido criminal e ideológico que já se entrelaça com facções brasileiras. A Polícia Federal prende “lobos solitários” juramentados ao Estado Islâmico. O presidente, no Rio, recusa-se a tratar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas — no exato momento em que os Estados Unidos os colocam nessa lista.
Isso não é nuance. É doutrina. A cartilha do IRGC e de seus proxies é sempre a mesma: avançar por instâncias civis, financeiras e religiosas até que o Estado anfitrião descubra, tarde demais, que hospedou um Estado paralelo. Quando um chefe de governo brasileiro viaja ao Norte e se apresenta como interlocutor de quem não pode — e não deve — pisar em solo americano, o afronta não é só protocolar. É estratégico. É o palhaço da corte tentando falar em nome de quem a corte já expulsou.
No Pacífico, o Partido Comunista Chinês não precisa invadir o Cerrado. Precisa de soja, de minério, de porto e de um agro suficientemente dependente para que qualquer “ajuste sanitário” vire chantagem. No começo de 2026, cargas brasileiras foram devolvidas, embarques suspensos, produtores expostos a um comprador que concentra cerca de setenta a oitenta por cento da oleaginosa que o Brasil exporta. Chamar isso de “ruído técnico” é inocência ou cumplicidade. Pequim não improvisa. Compra quando convém, devolve quando convém, antecipa safra quando convém, e estuda o dia em que o ativo — terra, trading, esmagadora — sai mais barato porque o produtor quebrou. Não é teoria da conspiração. É o manual de um Estado-civilização que trata o comércio como continuidade da guerra por outros meios.
No Atlântico financeiro, George Soros — o homem que, em 1992, forçou o Banco da Inglaterra a ajoelhar na Quarta-Feira Negra — ensinou ao século uma lição que a esquerda tropical decora de cor: não é preciso ocupar um país se for possível ocupar sua moeda, sua narrativa e suas instituições. A libra caiu não porque a Inglaterra fosse fraca, mas porque um apostador leu a fissura do sistema melhor do que o próprio Estado. Há fissuras semelhantes no Brasil de hoje: um Supremo que se comporta como poder político, um sistema eleitoral que decide quem pode e quem não pode falar, um mercado cativo de créditos, contratos e sentenças. Quando o escândalo Vorcaro explode — mensagens, contrato de mais de R$ 130 milhões com o escritório da mulher de um ministro, jato, pergunta sobre fugir do país dois dias antes da prisão — o cidadão honesto não vê “exceção”. Vê método.
Cuba exportou a doutrina. Chávez exportou o modelo. O Fórum de São Paulo exportou a rede. O Brasil, sob Lula, exporta o palco.
O cidadão de bem como inimigo número um
Estamos, como se dizia nos gabinetes antigos, em outra dimensão. As falas do presidente já não são apenas discurso. São recado. Recado para Teerã, para Pequim, para o Foro, para as facções que o Planalto insiste em tratar como problema de “território” e não de soberania. E recado, sobretudo, para o brasileiro que trabalha, produz, reza e ainda acredita que a lei deveria ser a mesma para o ministro e para o peão.
Para esse governo, o cidadão honesto não é base. É obstáculo. Quem faz o país prosperar — o sojeiro, o caminhoneiro, o lojista, a família que ainda educa o filho contra a cartilha — atrapalha a engenharia de dependência. O Brasil sangra. Sangra em segurança, em campo, em tribunal, em reputação internacional. Sangra porque o bandidismo deixou de ser margem e virou método: narcotráfico, tráfico de pessoas, lavagem, ideologia armada, sequestro do aparato jurídico. Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro não são o país inteiro. São o retrato de uma elite que confunde toga com trono e banco com bunker.
Uma nação que aceita isso por hábito deixa de ser nação. Vira pátio.
A divisão que o outro lado precisa
É neste ponto que a direita brasileira ameaça cometer o suicídio que a esquerda não consegue infligir sozinha.
As pesquisas da terceira semana de setembro mostram o que o instinto já sabia: no segundo turno, Flávio Bolsonaro e Lula travam um empate técnico. Quarenta e dois a quarenta e um na Quaest. Outros institutos oscilam na mesma faixa. Nenhum outro nome do chamado “segundo escalão” — Caiado, Zema, Cury, Renan Santos — vence o petista na simulação decisiva. A matemática é cruel e clara. Só há um instrumento capaz de tirar o Planalto das mãos do Foro neste ciclo. Chama-se concentração de voto.
Pablo Marçal não dividiu a esquerda. Dividiu a direita. Quis o palco presidencial com os direitos políticos sob contestação; o TSE indeferiu a chapa. Antes disso, o dano já estava feito: puxou voto do eleitorado que deveria estar fechado contra o Foro e empurrou fatia desse voto para o segundo andar — sobretudo para Augusto Cury. Sempre que um “moleque de marketing” entra numa disputa existencial, a pergunta correta não é se ele “incomoda o PT”. A pergunta é para onde foi o voto. Se o destino é a terceira via que recusa escolher Flávio, a operação, consciente ou não, serve ao incumbente. Em política de alto risco, o caos no próprio campo vale mais para o Planalto do que mil comícios.
Augusto Cury, escritor de milhões de livros e agora candidato do Avante, declarou que não apoiará Lula — e que também não apoiará Flávio. Quer governar “os dois lados” e acabar com a “indústria do ódio”. Soa elevado. Numa sala de palestra, talvez seja. Num país sob disputa de soberania, é anestesia. Há momentos em que o centro não é sabedoria: é recusa de escolher entre a casa e o invasor. A filosofia antiga já o sabia. Aristóteles distinguiu a prudência da indecisão. Agostinho distinguiu a cidade de Deus da cidade que se adora a si mesma. Tocqueville viu que a liberdade morre quando as elites preferem o conforto da ambiguidade à responsabilidade da decisão. Quem, à beira do segundo turno, promete não escolher, já escolheu: escolheu o inercial. E o inercial, hoje, tem nome, partido e Foro.
Não se trata de canonizar um candidato. Flávio Bolsonaro não é messias. É o nome que o campo conservador conseguiu colocar na urna com máquina, voto e viabilidade. Em outubro de 2026, viabilidade é moral. Cada voto pulverizado em gesto de pureza é um tijolo a mais no muro que o Fórum de São Paulo constrói em volta do país.
O Brasil não é quintal. Também não é berço.
O Brasil não cabe no quintal de Washington, de Pequim, de Teerã ou de Havana. Essa frase, dita com honestidade, é verdadeira. Dita por quem transformou o país em abrigo de ideologias radicais, de redes criminosas e de diplomacia para regimes que fuzilam persas nas ruas e financiam milícias no Líbano, é cinismo.
O Brasil também não pode ser o berço do bandidismo que usa qualquer meio — sentença, contrato, porto, púlpito, algoritmo — para cumprir a agenda de 1990. Há uma diferença filosófica que o eleitor precisa gravar: soberania não é o direito de o governante insultar aliados e acariciar inimigos. Soberania é o direito do povo de não ser administrado como colônia ideológica.
Por isso este outubro não é “mais um ciclo”. É hora de vida ou morte institucional. Cada voto conta porque a margem é de um ponto, de um estado, de uma desistência. A direita que se apaixona pelo próprio reflexo nas redes e recusa o instrumento eleitoral disponível não está sendo sofisticada. Está sendo funcional ao adversário.
Unir não é uniformizar o pensamento. É reconhecer o inimigo comum. O Foro não se divide por vaidade. A China não se divide por influencer. O IRGC não se divide por autoajuda. Só o campo que deveria defender a nação insiste em se fatiar como se tivesse tempo.
Não tem.
Às urnas.
O cidadão de bem precisa sair de casa. Não para “mandar recado”. Para retomar o recado. O agro não pode continuar refém de um comprador que estuda o preço da rendição. A segurança não pode continuar refém de um Planalto que discute semântica enquanto o crime discute rota. A Justiça não pode continuar refém de um arranjo em que o poderoso pergunta ao togado se já é hora de fugir.
Flávio precisa ganhar. A direita precisa se unir. Cury, Marçal, os neutros de gabinete e os puros de teclado terão de decidir se preferem a biografia ou o país. O país, desta vez, não espera.
O Brasil não é quintal de ninguém. Que deixe de ser, também, o berço de quem o trata como se fosse.
Viva o Brasil independente.
